4 de dezembro de 2012


  • A mania de amor e aquele tesão à flor da pele. Era um farsa como sempre é. E era real. Não havia mentira ou traição. Apenas erro, apenas equívoco. A loucura fazendo ciranda, ideias vagas sobre a virtude da sinceridade e um prazer auto destrutivo em ser incompreendida. 
  • Raras mulheres que realmente fazem da vulgaridade uma coisa. Porque a vulgaridade real e plena dá esse tesão imenso e mortal. O abismo da fêmea vulgar a fazer promessas. Eu conheço apenas uma assim: realmente vulgar, lindamente vulgar. A maioria apenas estilo, apenas consciência de que a vulgaridade é atraente pacas.
  • Preferiria que a partícula de Deus fosse chamada de "a partícula da alma de Deus". Porque alma é uma palavra incrível, uma dessas coisas que faz você pensar em "experiência linguística . A alma, feita verbo, criou o homem que pensa em Deus e em morte e que, por isso, vislumbra sua intervenção no mundo. E, caso a tal partícula fosse assim renomeada, não tenho dúvidas, seria bem, mas bem mais, compreendida. 
  • Ainda desenvolvo uma teoria na qual provarei que o Facebook limitou a internet ao juntar tudo em um único lugar. Navegar não mais. E, a cada dia, há mais páginas que levam para página dentro de um mesmo e único lugar: o facebook. É a cobra que morde o rabo no sentido mais perverso da imagem. A autossuficiência que elimina os outros, sejam quem forem: sites, negros, judeus ou twitter's. O Facebook, nesse sentido, é uma grande ameaça. 
  • Pensar em tanta coisa e lembrar de tanta gente. E onde fui parar? A solidão como condição e a descrença em 99% dos bem acompanhados. Porque a muleta conforta o corpo, mas não melhora a perna. (E hoje houve uma muleta esquecida na porta do teatro - algo que me causou frenesi e que merecia um curta metragem, um micro conto, uma história curta e esperta.) Assim: 99% das muletas são facilmente esquecidas se coragem - ou distração - houver.
  • Devo ouvir os conselhos de mamãe e sair de casa. Quanto mais deliberado mais eficiente. Ou alguém, sendo inteligente, ainda acha a espontaneidade e a natureza o grande conselho? (Não falo de intuição pelo mesmo motivo que não questiono a afirmação de um bêbado. O álcool faz falar mais do que se deve, mas jamais faz falar o que nunca foi pensado.)
  • um adeus um até logo e um nunca mais: as cartinhas, como os blogues, ficaram pra trás.    

27 de novembro de 2012

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vem tu. esse amorzinho na varanda e aquela ejaculação precoce que causou risos. e ele melhorou o mundo, ela disse. essa habilidade de usar a língua, de usar os dedos, de lembrar que há o ânus e todas as ramificações nervosas. e então elas, os dedinhos duros, a habilidade de se masturbar enquanto fode em todas posições. mania de gozar, mania de repetir que goza assim, fácil, fácil. que leu todas as revistas. que sacou os truques. que não não, eu não cozinho, não faço bifes. minha geladeira vazia é minha liberdade, minha autonomia de mulher do século 21, ela diz e ri. e bem linda ela rindo, devo dizer. dentões enormes, uma sobrancelha fina demais e a boca laranja de batom. então as falas, as cervejas. o beijo, o beijinho, o riso frouxo movido à álcool e baseados e lembra de como ria quando tava lendo o r. moraes falando de peidos, de fanchas, de arrotos e balas perdidas. ela ria. os dentões em polvorosa e eu cheio de tesão. tesão tesão. a velha mania de misturar o tesão e o amor e quem não entende? sexo faz amor, a gente sabe. muito sexo com a mesma pessoa e algum amor. assim: o corpo interferindo nos sentimentos. àquela perversão. cadê a liberdade, cadê? e insiste: o amor é livre. mas não é, ela não sabe. o amor é prisão: o que fazer, quando e onde comer, tudo passando pelo crivo alheio. pode valer a pena: os filhinhos, a tranquilidade de domingo, a televisão de mãozinha dadas. o risco que o amor exija que você tolere: o z. camargo é um grande comunicador, a 'avenida brasil' foi uma novela inovadora, o importante é a felicidade, né benzinho? a televisão distraindo, a solidão confortável da internet, o sexo pago e a generosidade das putas, tão lindas e tão baratas e tão esperançosas quando perdem a hora e dizem que querem casar e morar na Itália, esse país tão fascinante.  e tão próximo, né? elas são sonhadoras e amam também, mesmo que incompreendidas, mesmo que loucas, mesmo que com uma história velha e conhecida: a cidade do interior, o marido agredia, o filho que merece tudo que o dinheiro compra. dez anos nessa vida passa tão devagar, elas confessam. e o impulso é só um: põe no meu nome, faz um bife pra mim, esquece que o mundo é real, dinheiro dá-se um jeito.
As saudades, a ideia de que algo foi perdido. Que houve um tempo, que o tempo passou. O sorriso da cavala, a mulher linda e enorme que te amava. O tempo. O adeus, o adeus. A saudade do melhor boquete do oeste. Toda ternura. Que nem havia oeste naqueles tempos saudosos.

16 de novembro de 2012

=-=

Eles se fortalecem ao lamberem um o cu do outro. Um tipo de roda. Um comportamento gregário e, portanto, de auto-preservação. É o rebanho unido e mais forte porque unido. Não há mal e muito provavelmente não há também nenhuma reflexão; auto-reflexão, quero dizer. Lamber cus para ter o cu lambido poderia ser uma estratégia da mente sagaz, do comportamento frio de um bom líder. Mas não creio ser o caso.
Há intensidade e passionalidade. E crença, muita crença. Não há visão, há cegueira. Cegueira livre, cegueira plena, ignorância que crê em gênios, em talento nato, que é indiferente à sorte e cogita que tudo é fruto do trabalho, do suor.
Eles são felizes e bem-sucedidos. O mundo gosta deles e, por isso, eles gostam de si mesmos. Não há pecado e mesmo a malícia é natural. Porque são todos naturais. Como as ovelhas, como árvores na floresta.

15 de novembro de 2012

Amorzinho generoso,
cheio de adeus.
Quando eu disse 'eu te amo',
ela disse 'até mais'.
E por isso,
apenas por isso,
vivemos felizes pra sempre.

12 de novembro de 2012

Ele é um tipo bicha-diretor de teatro. Magro, óculos de aros grossos e razoavelmente bonito.
Quando digo bicha-diretor de teatro nada tem a ver com ser gay, hétero, pan ou que diabos. Estou falando de estilo, de personalidade, de tipo. Etc.
Ele é talentoso, pelo que disseram. Faz peças que saem da média e que  - e isso é um mérito bem concreto - fazem mais de uma temporada.
Ele me incomoda. Os motivos são vários, mas não são reais. Quero dizer: me incomoda pelo que posta em seu face, em seu blog, ou então pelo que ouço falar dele. (sempre lembro, nessas horas, da anedota que diz que o Meyerhold disse sobre o O. Wilde: "eu gosto da obra dele; não gosto dos que gostam da obra dele".)
O fato é que ele está lá. Meu facebook, minha linha do tempo - puta nome 'linha do tempo', né?, eu acho.
E vejo suas perguntas retóricas, seus posts-sacadas e até suas inusitadas fotos de perfil. Irritar-se é uma forma de prazer ou apenas uma resposta ao tédio?
Também tenho perguntas retóricas e post-sacadas, ainda que me contenha nas fotos. Quero dizer: que diabos, é isso mesmo? Posar-bem-posado cola mesmo?
Ok, ok, estou sendo moralista. Essa coisa de desconfiar da verdade das coisas é sempre moral, eu aprendi. Mas porra... mas poxa... nenhum deboche sobre si mesmo? Nenhuma auto-ironia?
Posso usar um único e implacável argumento: falta humor. Que essa coisa de divulgar as profundidades da subjetividade profunda é cafona, muito cafona. Taí o C. Veloso - quase o dono da palavra 'cafona' - que não me deixa mentir. Cafona pacas. E nem comento sua coluna no Globo porque, vá lá, não é o caso.
Fico com a bicha-colega e reflito, subjetivo, né?, que o blogue é a terapia pós-moderna. Deus, se vivesse no céu, riria entre as nuvens. Deus, se existisse, só seria aceitável com humor, bastante humor.

9 de novembro de 2012

Tenho um bourbon de 70 pratas contabilizado como presente da avó.

há muita confusão. E isso é normal. E tudo é normal. E há muita coisa errada. 
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Sempre, ou quase sempre, as dores e as glórias vêm do mesmo lugar: vaidade disfarçada. Há muita vaidade em estar no topo do morro ou no fundo do poço. E a confusão, sempre esperta, tá no meio do caminho. Vaidade, a bruxinha que el bigodon me deu e com quem, em noites inúteis quando planejo maravilhas, faço amor.
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Ela poderia ter uma buceta mais ostensiva. Buceta dessas que cismam(?) comigo e ameaçam: vou te comer. Sinto falta delas porque elas já existiram. Rendiam histórias e causos pra contar. Como uma que chorava e achava um absurdo eu não amá-lá. Ela tinha razão e sua buceta estava ali, sempre ali. E foi bom porque bom é e é bom. E, vá lá, amor, hoje em dia, nasce com a repetição do sexo. As cartas dos antigos amantes eram mais simples. A gente gosta da nostalgia. 
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A cor bonita do bourbon. Os pequenos estalos que o gelo faz. O gelo geme e o líquido é tragado: deixado no céu da boca antes de ser sorvido. Sempre lembro que canos de cobre transportam o álcool quase puro (98%) para o tanque de carvão. Acho que é isso. Gota à gota e tanques gigantes. A mesma formula e água de uma fonte única. O barril queimado, bem queimado - e o segredo parece estar no barril e no jeito que é queimado.  E há quem acredite que a felicidade surja em 'horinhas de descuido'.
Meu puta porra / Meu trocadilho engatilhado / E ela demora no banheiro / Suponho que esteja cagando.
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Uma Dalila pela frente. Ela tem 15 páginas, se não me engano. Penso nela, mas me recuso. Estou aqui. Quero fazer. Sou o animalzinho bíblico que se orgulha do próprio suor. Fiz 8 flexões de braços hoje. Pensei que aumentar as costas é mais fácil que perder a pança. Peguei um alteres de 2 kg que tenho e criei um tipo de exercício. Olhei-me pelado no espelho e lembrei das mulheres que me amaram. Que disseram que me amavam, que acreditavam que me amavam. Tanto faz. Meu exercício é meio dança e meio gay. Não sei. 8 flexões e meus ombros de fisioterapia: mundo louco.
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A maldição das fotos. A maldição do facebook: ver o que não se quer. E perco muito tempo. E perdemos todos. Tão precioso não ter a vida como um livro aberto. Se fosse o da Costa ou L ou M, diria: falta campo de ação para as subjetividades. 
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É uma agonia fina. E íntima, terrivelmente intima. Não é tudo que pode ser compartilhado. Sente-se em solitude (aprendi com fran-fran essa palavra) a agonia fina. E é bonita essa agonia. E até há desejo de dividi-lá. Mas não dá. É impossível. Intima, terrivelmente íntima.   
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Tarefas de amanhã: pequenas conchinhas. E metas para um futuro brilhante. Não se trata, todavia, de manter a chama da esperança acesa. Isso é coisa de quem acredita em felicidade. Eu não. É mais simples: coisas pra fazer. Correio e papelaria, por exemplo. Uma ou duas laudas, outro exemplo. Lembrei do comercial que dizia 'matar um mamute por dia'. Era um comercial eficiente e perverso como são os bons comerciais. Não é necessário matar mamutes, mas, sem cuidado, eles te convencerão que não há carne fresca no supermercado e que o sucesso (seja lá o que isso for) depende apenas de você... Coisa de criança isso de achar que fazer sua parte é suficiente... Como se sorte e grandes jogadas não existissem.


7 de novembro de 2012


  • os pontinhos são guias e Deus abençoa à todos porque é Deus. Deus não existe, mas só faria sentido se fosse só perdão. Sou romântico, sempre fui. Cago-me de medo de me apaixonar.
  • tem os livros. Eles salvam e nem são o bezerro de Deus. Hemingway dá letras. Do tipo: ame-as, envolva-se, mas não as deixem estragar sua vida. 
  • Faz todo sentido o Buk atacar o velho Hemingway. É decente, é ancestral. Se fosse profundo falaria de Édipo e tudo isso. As frases curtas, a narrativa objetiva e despretensiosa é provocação para qualquer um que pense em escrever contos.
  • o único tesão real é pela garota da padaria. Vulgar, cabelo colorido e uma sensualidade que confunde até os mais machos do boteco. O gaúcho, por exemplo, jura que ela gosta é de buceta. Acho que ele tá errado. Ele também acha estar errado, mas desconversa. Tesão: ela tem uma tatuagem mal feita no pulso com seu apelido de infância.
  • Amizade é tipo amor. No sentido de lealdade. Essas coisas antigas que me comovem e fazem sentido pela teimosia. Toda lealdade profunda é fruto da teimosia. Por isso a aceitação de chatices variadas e coisas do tipo. Lealdade, minha bandeira anti-natural que não defende os mais fracos.
  • Pensar nos sonhos, pra alguém como eu, é idiota. Na medida em que sonhos é tudo que tenho. Mas pensar em sonhos, pra gente como maninha ou jotinha ou kázinha, é uma absurdo. "Como, assim, sou eu que faço certas coisas, seu bobo? Eu não controlo o mundo, sabia? Pra sua informação: a vida é dura."
  • o ódio não é virtude. E, pelo mesmo motivo, o amor também não é. Pense e diga o que quiser, mas, vá lá, não acredite que seu amor, por si só, possa salvar o mundo. Ou os índios; ou os pobres, ou, sei lá, transmitir consciência pelo facebook.   
  • a solidão não é boa, mas é decente porque não permite que você culpe os outros. Culpa só vale quando extremamente pessoal. Culpa compartilhada é culpa rota.
  • tesão, meu amor, tesão. Mas ela não ajuda, ela não entende. É impossível um casal, ou uma dupla, com dois cheios de preguiça ao mesmo tempo. Tentei avisar, mas ela não entendeu: '- diga 'eu te amo' e me persiga por uma semana. Serei teu pra sempre.' Ela apenas me pediu: '-me liga aí.'
  • Porque a internet é má e dá acesso, fiquei horas vendo fotos da minha ex-vizinha. Brinquei de tempo, de destino. Ela era linda em 78% das fotos. Delirei tanto que concluí que ela era insegura e não se achava linda. Porque existem pessoas que pensam que jamais viverão um amor. Pensei que a ex vizinha podia sofrer desse mal e arranhei sua porta vazia: eu te amarei, eu te amarei. 

2 de novembro de 2012

Voltando à vida real - seja lá o que isso for. (Mas, esclareço, a 'vida real', jamais é ou será o que a maioria das pessoas chamam de 'vida real')
Releio, numas de terminar, meu primeiro Zé Rubem, que foi como aprendi a chamar depois de velho e gostei (Diana Caçadora me ensinou). Livro afetivo, tipo primeiros livros e que me fez achar que ler é bem legal. Eu tinha 15 anos e o 'simples' fato de ler perversidades variadas abria o mundo e o tornava maior e mais divertido. Li mais.  E, em momentos românticos, acho que ainda leio por isso, 'apenas' por isso. Esse tesão que é pensar algo que jamais se pensaria se aquilo não tivesse sido lido.
A releitura é um risco e sempre será. Mas não importa. Leio, acho bom de modo geral e tenho ataques de nostalgia ao lembrar daquele que era eu e lia. Deus, os palavrões tinham uma força que hoje desconheço.
Mas é tudo pra começar de novo, pra se preparar, pra sentir o cheiro da merda. Sou sistemático e me antecipo: faço planos, prevejo dores e administro agonias. Vá lá, maninha, querendo ou não somos agentes das próprias merdas, entende? Não, maninha não entende. Maninha é triste. Maninha é burra. Maninha achar que tristeza e burrice é culpa do mundo e não dela.
Ah, maninha, a culpa é tão decente de sentir e carregar. Triste mesmo são os falsos que acham, e insistem, que a culpa é uma simples invenção judaico-cristã.
Então minha música alta, meu porre ensimesmado e a certeza de que jamais devo ser natural. Porque me isolo, porque me escondo, porque aprendi, lendo e como não?, que a natureza tem pouco de espontâneo e muito de conforto. E, vale reparar, há pessoas que sentem muito conforto vivendo dentro de uma caixa de sapatos. "O corpo se acostuma, sabia?"
Amanhã a retomada: café, leituras e alguma sistematização. Amanhã a vida real: nada de natural, nada de deixa rolar. Amanhã: aquilo tudo que hoje preparei.



25 de outubro de 2012

Minha solidão com meta é tudo que há. Estou falando de mim, como não? De mim, minhas mentiras e também do que não é o caso de alugar os amigos.
Minha solidão com meta é um edital-mira, umas apresentações ainda esse ano - à revelia de condições ideais - e ler meus livros ali, logo ali, sob o abajur de luz fria que tenho.
A vida prática, o dinheiro, o sexo e as moças generosas me afligem pouco. Talvez menos do que deveriam. Tem um amigo que quer que eu coma alguém a qualquer custo. Ele fala de saúde e coisas do tipo. Desconfio porque sou desconfiado, mas sou leal e penso 'é um bom amigo'.
Em última instância é sempre vaidade. Eu li e aprendi e dei razão. Nisso incluo os livros sob o abajur, a auto suficiência, as desconfianças e o bom amigo.
Muita confusão. Deve ser culpa da internet, do facebook. Do botão compartilhar - nome semi-bíblico, né? Então consumo os índios fudidos, os idiotas pró-índios-via-de-regra e lembro que essa coisa de tradição é um perigo: para os índios, para os idiotas e, como não?, para mim mesmo. Repetir-se é conforto. Sempre e sempre. As razões disso variam e não importam tanto. Quero dizer: ainda me impressiono com a exceções.

23 de outubro de 2012

preparar a alma e inventar os pequenos milagres. lembrar que é um dia depois do outro e fazer de conta que isso é uma novidade. passear pelo belo rio de janeiro e, quem sabe, ir ao cinema na sessão das 17:oo. Há muita paz em um cinema na sessão das 17:oo. pegar dinheiro, fazer telefonemas e cumprir as pequenas tarefas. se a dor vir, inventar um método para torná-la útil. lembrar que apenas ação existe, que só depois de sua consequência podemos ver se foi boa ou ruim. que intenção é inversão, uma vez que ela é anterior e indiferente as causas que a ação cria. ler àquele que abre a cabeça e ter elegância de se rejubilar sem nada dizer diante de algum imbecil que faça ode ao tempo presente. como se o tempo presente existisse, como se o tempo presente fizesse sentido fora de circunstâncias muito raras, como o orgasmo, o ator em cena ou outras horas onde a técnica tempo presente pode ser útil, mesmo que jamais seja real. quem sabe, se estiver bastante inspirado, cutucar alguém no facebok.
  

14 de outubro de 2012

O importante de ler é porque a gente se torna menos mesquinho e tacanho. E, ao mesmo tempo, a gente se torna mais esperto e cascudo; não cai na falsa profundidade que engana os imbecis. Lendo eu me torno melhor do que a média. É arrogante, eu sei. E é assim. Na mesma medida em que é real. Não vale a sabedoria instintiva. Quer dizer, vale. Mas é instintiva e, por isso, não há mérito real. A inteligência é construção. Por isso me sinto só e por isso não creio no sucesso aceito por uma maioria. Veja, estou sendo elegante. Quem acredita em inspiração e/ou liberdade jamais concordará com isso. De toda forma, me sinto bem e com raiva: ainda não me conformo quando o lugar comum mastigado é aceito como 'texto bonito'.

28 de setembro de 2012

o maldito tesão que passeia. e tá tudo certo e tá tudo. e, sendo franco, depois do dia 01, já sei que nada será como antes.
estou falando de otimismos insuportáveis e de enganos generosos.
seria Deus, se Deus fosse o caso.
Não é:
  1. lá fora tem a guria da padaria. É vulgar e decente. Assim: -  essa sua tatuagem me faz pensar em tantas coisas.
  2. seu Amor mais real não te ama como seria o certo. Penso que 'o certo' seria do caralho. Então os projetos e a eternidade como meta secreta. Naquelas: esquece ele e pensa em nós.
  3. tenho vislumbrado daqui: sua vida besta, seu marido de boné e a academia para cuidar do corpo. Não tenho metade do conforto que ele tem pra te oferecer, mas SEI diabolicamente: comigo, sua vida, meu anjo, seria bem mais vital.
  4. pense nos filhos que não nasceram. Pense bem. Tente ver se há, se realmente há, tanta graça em ter filhos. O risco é sempre grande: os cretinos muitas vezes tiveram pais amorosos.
  5. meu esforço é não falar de mim. Quero dizer: alguma elegância para ser discreto. De todo modo, posso apenas lamentar: minha vizinha é tão discreta quanto eu.
  6. rasgar o blá-blá-blá. Como se não fosse ou como se fosse 'natural'. Natural, essa palavra que o hortifruti de botafogo usa pra falar de alfaces hiperinflacionados e orgânicos.
Adeus coração. Àquela mensagem pra ti e o segredo de rir. Pelo boné, pelos amores calmos, pelo dia após o outro e a ilusão de que "fantástico" aos domingos é um puta programão.
Sou mais a pizza, sou mais o hotdog.
Fim de semana, meu amor, não é dia para comer feijoada no restaurante.

20 de setembro de 2012

Estou falando de gente morta.
De casais que se definham mutuamente e que acham o processo natural de desenvolvimento do cactus algo encatador.
Estou falando de mortos que gostam da boa companhia de outro morto.
Alguma coisa que ficou pra trás. Algo que se perdeu no caminho ou então, e isso é muito pior, que nunca existiu.
(Porque há essas pessoas que não pensam, que são extremamente burras. Que são levadas ao sabor da maré e que nunca lembram que sim sim, existe opção e não não, optar não é garantia de nada. Gente burra, tão burra, que nem cogita que optar não é ser racional, mas apenas não ser bicho-idiota que come apenas e somente em maré cheia. Como minha irmã - que é esse animal no lugar de gente: que reclama por ser bicho e não ser gente)
Então é disso:
gente morta, gente triste. Gente que se preocupa se está ou não feliz.
Perde-se tempo, erra-se o inimigo e usa-se a boca cheia pra falar d'a injustiça do mundo'.
O mundo é injusto e todas as pessoas decentes sabem disso. A coisa é pior;
é: - quer mesmo que eu acredite que você é tão idiota apenas porque o mundo injusto?
Gente morta do caralho. Que só ve o inferno. Que só vê a escuridão. E que, como não?, exige ser comprendido. - você não vê o inferno e a escuridão por incompetência, tá ligado?
A velha vaidade dos mortos: - eu sofri muito mais que você, sabia?
O sofrimento como virtude...a merda mais velha.
Vampiros que desfilam sem charme, zumbis que passeiam encantados com a descoberta da mariposa albina, lobisomens que 'entram em questão' com a própria sexualidade.
o pior.
os mais afetados.
os menos tristes e os mais sinceros:
a escória,
a ciranda.
E eles e elas e todos estão aí e estão sempre entrando em sua vida. Como sangue-sugas que são. Como idiotas que são. Como bichos de maré que são.
A casa mais linda,
a irmã mais burra
e uma única certeza que ulula:
tudo, menos isso.

11 de setembro de 2012

para ex namorada


Fernandinho varre a casa e passa pano.
Surpreendentemente, Fernandinho não sofre muito com isso.
Fernandinho, acho, está virando hominho.

10 de setembro de 2012

  • Minha vizinha se tornou linda em segundos. Quero dizer: tornou-se. Porque assim foi. De repente, em questões de segundos, ela era linda. Verdadeiramente linda. Disse pra ela: L-I-N-D-A. Mas acho que ela não entendeu. Supôs que era frase de efeito. Pior, disse: é só porque vou me mudar, né? Não era. Mas, vá lá!, ter uma vizinha que se torna mais linda porque vai se mudar é uma história bem melhor do que perceber que a vizinha é linda depois de a ver em um Karaokê Gay. Eu entendi. Meio triste, mas entendi.
  • É você. E você é si mesmo. Quero dizer: não importa ninguém. Porque motivos para 'não' não importam. O egoismo é a velha lição.
  • Egoismo bom é meio assim, disse el bigodon: se te dá conforto é bom, se não, cai fora. A não ser que queira ser mártir. E ser mártir, se bem lembro e entendi, é a vaidade mais escrota de todas.
  • Deixei um bilhetinho embaixo da porta. Bilhetinho-sincero-tipo-bêbado: Vizinha, você é linda.
  • Penso em Deus. É inevitável. Mulher me faz pensar em Deus. E isso não no sentido positivo da coisa. Porque Deus, a gente sabe, faz mais sentido quando é mal. Aquela justiça primitiva de olho por olho, dente por dente: mulher.
  • Minha vizinha vai só melhorar, eu sei. Mas sou discreto e tenho auto-controle. Ouço sua porta e reprimo meus impulsos mais primitivos. Agradeço ao Deus mal que ela vai se mudar. Porque Deus sabe das coisas, eu aprendi. Mas, de qualquer maneira, sempre espio sua janela quando penduro meus lençóis.  

8 de setembro de 2012

a ideia é que há algo a entender, mas não há algo a entender.
você pensa em deus, pensa nos amigos mortos, tenta lembrar de um ente querido.
inventa, como não?, uma possível mensagem subliminar.
- e então? qual vai ser?
você disfarça, faz uma piada boa, solta uma frase de efeito e lembra que o nelson rodrigues sempre foi genial.
- mas afinal quando é que você vai terminar o serviço?
não há nenhuma chance de interpretação, nenhuma metáfora. piadas e frases sem o gênio do nelsão.
- minha casa é pra lá e a sua pra cá. qual vai ser?
você lembra das danças, dos poucos boquetes perfeitos que existiram.
você lamenta profundamente não acreditar em deus.

2 de setembro de 2012

Fazendo gestos com as mãos e fazendo de conta que é expressivo. A confusão mais antiga de todas. A confusão bíblica. O suor como virtude para o pão, o macho e fêmea os criou como coqueluche cúmplice de merdas variadas.
A maioria absluta e terrível. Os casais de merda - minha mais sincera tristeza.
Quero dizer: por não querer comer merda sozinho, arranja-se alguém para comer junto.
A triteza mais triste: gente incapaz de comer merda sozinho. Ou pior: gente que esquece que come merda porque não come só.
Mas não há nada a ser provado.
É mais a pulga que coça e lembra que o óbvio é discreto a olho nu.
...

25 de agosto de 2012

O que sempre falta, então a gente faz. Teimosia, meu amor. Tesão de teimosia, conhece? Lembra?
Essa coisa de ir, de fazer, de mexer o corpo pra se enganar e dizer pra si próprio: estou vivo. Participar da mentira e se divertir com isso. Dar oi para desconhecidos, comprimentar, dizer prazer e dizer o próprio nome. Tomar carona e falar ao celular. Dizer até logo. 

20 de agosto de 2012

aquele amorzinho antigo que coça.
tipo frieira; dor e coceira - prazer misturado.
tem a ver com muito tesão e pouco sexo,
com rancor enrustido e ultrapassado,
com prazer de dizer adeus.
aquele tesãozinho chinês,
a oriental que sempre geme de um jeito estranho.
o amorzinho
e o tesãozinho
andando sempre
lado a lado.

27 de julho de 2012

Faz tempo que não venho aqui.
Os sentidos se perdem. Às vezes para sempre. Às vezes não.
Não sei qual é o caso, mas não importa.
Tava nos meus arquivos catando coisas e caçando sentidos. Daí vi isso, que é bem antigo e sem data. Lembro que comecei em 2.000 ou 99. O alimentei por um tempo e depois parei. Quando tentei retornar, acho que 2006, não consegui.
Na época pensei que era um pedaço da adolescência impossível de ser retomado ou mexido.
A última vez que alterei o arquivo foi em 2009, mas não sei se foi quando escrevi isso.
De toda forma, segue:
=
=
herói e fernando:
 

Fernando: herói me diz uma coisa.

herói: fala.

Fernando: você tem medo da morte.

herói: ...não, acho que não...

Fernando: Faz tempo que eu não venho aqui...

herói: eu sei...

Fernando: você deve Ter mudado muito, deve estar diferente...

herói: não sei...

Fernando: Você me irrita, herói..

herói: Por que?

Fernando: Porque você está aqui há muito tempo. Não caga nem sai da moita(herói o olha) É uma expressão herói(ele o olha) Uma maneira de falar...

Herói: E você? Você faz diferente? Caga e sai da moita?(fernando fica em silêncio) A única coisa que eu posso dizer de mim é que eu faço muita coisa, mesmo que eu não cague e nem saia da moita...

Fernando: Eu odeio isso em você herói...essa mania de repetir as coisas...parece que é uma maneira de você ganhar tempo...Ter volume...

Herói: (revoltado) Volume de quê? Volume...

Fernando: Como de quê? De páginas, meu bem, de páginas.

Herói: Mas isso é coisa sua. Não me diz respeito. Eu apenas sigo suas manias...

Fernando: Então é culpa minha?

Herói: Claro! Claro que sim. Você fala e não chega a nada. Parece até que você foge, sei lá....será que você foge?

Fernando: Como assim? Fugir de que?

Herói: E eu sei lá? Mas as vezes eu penso sozinho, sem ninguém dizer nada, e eu penso que você me usa...assim como sempre as pessoas fazem se fazer de conta que a vida tem algum valor, algum sentido, sei lá.

Fernando: Porra, herói, se você disser isso fudeu de vez.

Herói: Eu to cansado, cara. Eu me repito e você não me ouve. 

Fernando: Mas não é assim, Herói. A gente tenta chegar em algum lugar. Todo mundo tenta. É normal que essas coisas demorem, é normal que essas coisas se confundam...

Herói: Ta, ta. Pode ser, mas vamos combinar que isso cansa, oras. É demais, é tempo demais.

Fernando: Ta, ta. Mas o que você que que eu faça?

Herói: Quero que você decida e pare de me usar. Pare de fazer de conta que ta tudo bem e que as coisas têm que ser assim. Não têm que ser assim. Isso só depende mesmo é de você. Decida aí, cara.

Fernando: Herói, mas você nem fala cara. Por que ta falando ‘cara’?

Herói: você é mesmo muito cínico...

Fernando: ta, ta. Eu admito: sou cínico. Então vai lá e resolve tudo. Eu vou ficar aqui, do mesmo jeito, vou ficar inventando minhas mentiras e vou te usar de novo. Pô, herói, achei que teria jeito, sabe? Quando eu comecei isso aqui eu achei que teria jeito, mas não tem. Sei lá. Mas é como se antes as possibilidades fosse maiores. Agora não. Agora tem eu e você. Você que é meu produto, entende? Uma merda.

Herói: Ta. Mas o que eu faço então?

Fernando: eu não sei, não sei.

Herói: você que manda. Então vou ficar aqui. Esperando.

Fernando: Espera herói, espera.

2 de junho de 2012

=-=-=

  • A enorme capacidade de amar que ela tinha. Era superior nesse sentido. "Ser amado" é confortável e acalma. Ela não: ela amava e sabia que 'ser amado' não era tão importante assim. Então amava, e amava muito, e, por isso, por poder amar só, era feliz. E por algum tipo de magia sempre ocorria o encanto: ao amar tanto acabava sendo muito amada - e isso, infelizmente, é muito raro.
  • A cocaína nunca foi um problema. Era uma droga recreativa, uma diversão de 4 ou 5 vezes ao ano. Deixou de ser quando vi a merda toda: a compulsão do viciado virando garras e ferindo os outros. Virou tabu, gerou sisma. Hoje, ao ouvir uma história, tive a triste certeza: ele usa cocaína. Mas não falei nada porque não sei de nada e porque apenas supus. Meu achismo comprovou o óbvio: a cocaína virou tabu.
  • A inteligência sempre é admirável - mesmo quando não fala nada ou fala pouco. A inteligência, de forma geral, não é chata. Um chato inteligente não existe, por exemplo. Mesmo que um chato possa ter muito, MUITO conhecimento, ele jamais será inteligente. Ou se é chato ou se é inteligente. E vale lembrar: o chato, na média, faz muito alarde; já o inteligente tende a passar despercebido.
  • Lembrei da frase que escutei e que não lembro o dono: " A ironia é a tristeza do inteligente." Puta frase, né? Eu acho.
  • Eu poderia me apaixonar por aquela guria. Por achá-la gostosa, por acha-lá bonita, por imaginar que conversaria horas com ela. Mas a paixão não depende só disso: tem o tempo, a repetição e a manutenção das primeiras impressões. A paixão se diverte porque deseja ser corriqueira. Mas a paixão, como tal, é bem mais imprevisível. Talvez por isso eu implique com gente que diz: "sempre me apaixono", "vivi várias paixões" ou "sou um apaixonado(a)."
  • Percebo o nó na garganta da amiga. Digo: chora aí, bate aí, grita aí. Ela grita, bate um pouquinho na almofada que lhe mostrei, mas não chora. Tudo certo. O ser humano é essa coisa estranha. Muita dor presa, sobretudo nos mais livres. Doer é existir - e dor, em 99% das vezes, se sente lentamente e sozinho, é inevitável. Então amiga, te digo: põe aquele disco triste e bebe aquele vinho guardado; e não esqueça de estar só, muito só.
  • O tempo apaga as pessoas. Amigos que passam e deixam de existir. Ainda existem, mas não são reais: a amizade que só faz sentido em outras épocas e outros contextos. Lembro do meu pai dizendo: " a gente era muito amigo e viajávamos juntos, mas acabou: os filhos cresceram, os sonhos e trabalhos mudaram e fomos perdendo contato. É assim, é normal. As amizades tem muito a ver com uma época."
  • Nem toda despedida é triste. Perde-se contato, muda-se de idéias e, querendo ou não, as coisas mudam. A mudança, per si, não é boa ou ruim. A mudança ocorre, apenas ocorre, e, de repente, geralmente atrasado, nos perguntamos: nossa, por que tudo mudou tão de repente? Mas nem foi de repente. Foi lento, foi imperceptível. A gente é que só nota depois.
  • Acendo aquilo que deve ser meu último cigarro hoje. Há um silêncio na casa que posso ouvir. Porque sei que em breve, muito breve, não haverão silêncios. E gosto disso também: a casa cheia de gente, as gentes invasivas, o vínculo sanguíneo como um dado real - coisa que órfãos entendem muito mal. Vou ligar meu gravador, vou falar para o mp3. É assim, nessa mistura tímida e involuntária, que eu me torno eu mesmo: e, vá lá, isso nem é tão simples quanto parece.  

28 de maio de 2012

\lista/

  • O amor passeou tanto dentro de você que se perdeu.
  • A alegria dela sempre me pareceu estúpida. Não que não fosse alegre ou verdadeira. Incomodava-me que era alegre demais - como o amigo suicida do Tchékov.
  • Irritar-se com a carioca burra e afetada de 18 anos é normal. Ficar irritado por isso muito tempo não é inteligente. 
  • Tristeza é voltar com a mesma quantidade camisinhas.
  • Meu caráter circunstâncial prova minha fraqueza. Lembro que existem medicamentos para esse tipo de coisa. Não querer drogas químicas é uma burra questão moral.
  • Conversar com gente nova quase sempre me dá mau humor. Os jovens precocemente velhos são, via de regra, mais interessantes.
  • A felicidade nunca será a prova dos nove. Em última estância só o chato é eterno.
  • Ouvir alguém que fala alto me irrita muito. Ouvir um que pergunta a outro algo que poderia descobrir sozinho me irrita muito também. Conclusão: vivo irritado por causa dos outros.
  • A culpa existe sobretudo para aqueles que dizem que ela não existe. E aquele que diz "pra ser sincero" está apenas sendo cretino com mea culpa. Repare: o 'sincero' costuma dizer que a culpa não existe.
  • Sob qualquer circunstância usa a palavra América 'auto-estima' será um ato falho.
 

25 de maio de 2012

A impossibilidade da beleza nunca me incomodou. Assim como também nunca achei ruim o fato do amor não ser um sentimento espontâneo. "Amor à primeira vista" é um discurso bonito, mas pouco verdadeiro. Inclusive por isso a beleza é impossível. A verdade não permite a beleza - essa linda ilusão que alimentamos com alguma consciência. Todavia, a beleza é legítima como invenção: pelo prazer da carne, pelo devaneio dos sentidos. E taí a arte que não me deixa mentir. Um belo quadro muito e tantas vezes não tem nada de beleza. É belo pelo que nos causa e não pelo que é.
E o amor espontâneo é minha sobrinha quando tinha 5 anos e me disse 'eu te amo' após eu ter preparado sua refeição. É coisa de bicho: amamos quem nos alimenta, com comida ou não.
Então olho pra trás e lembro dos meus amores rotos. Verdadeiros enquanto alimentavam e eram alimentados. E penso nos casais que continuam juntos mesmo sem alimentação e me recordo que o hábito é um conforto e que se sentir confortável é se sentir bem e feliz. A felicidade, muitas vezes, é perversa. Por isso, por estar vinculada à idéia de conforto e por se esquecer que tantas vezes o conforto é apenas um costume adquirido.

22 de maio de 2012

(s.r)

Seu amor é uma desculpa para sua mania de amar.
Amar tanto é um jeito de nunca amar muito.
Conta-se as gotas, faz-se as contas
e imagina-se o impossível.
Amar, assim, meu coração,
 é apenas
 levar
 o cachorro
 pra passear.

17 de maio de 2012

relatinho

  • Acordo cedo, mas me enrolo um cadinho. Passear pela cama é um prazer de bicho. Os gatos ensinam suas lições.
  • Há um mal humor sem razão de ser. Explico fácil: coriza e vias aéreas entupidas. Depois de expelir meus mucos, acendo a luz:  um jeito caipira e cristão de não voltar a dormir. Vejo o envelope embaixo da porta.
  • Volto para o quentinho da cama com o envelope na mão. Acendo e leio. É ancestral: entendo tudo, tudo mesmo, que está escrito.
  • O vício pede café e o mal humor se acalma. Cagar depois do 2° café é um tipo de benção. Imagino essa gente que precisa de activia e dou graças por ser um bom cagão.
  • (O cigarro é bom, é sempre bom. O grande erro dos não fumantes e das campanhas anti tabaco é só um: achar que o cigarro não é bom. [ E ser bom e fazer mal são coisas distintas. Como sexo sem camisinha, por exemplo. É mal, mas é sempre melhor do que com camisinha. Até o Papa concorda.] )
  • O mundo é cheio de gracinhas. A professora me dá atenção porque conheço a palavra 'espístola'. Na sequência me junta com a pior americana do mundo e da América: incapaz de olhar pros lados e centrada em si e suas dificuldades. Tento explicar que traduzir ao pé da letra é impossível, mas ela não entende porque nunca entende. Ela tem esse defeito: jamais entende ou entenderá e, muito possivelmente, acha que os outros são muito intolerantes com ela. 
  • Estar em grupo é fácil. É coisa de animal, da natureza. Grupos sólidos impõem indivíduos. Aproveito isso, mas, cá comigo, confirmo meu preconceito: os de mil amigos ainda são os mais solitários.
  • Outra americana, agora a melhor da América e de outra turma, usa meu grupo para falar comigo. Sinto-me bem, falo com ela e lembro da música que representa nossa nação atualmente: delícia, delícia, assim você me mata.
  • Penso em ficar aqui por mais um mês. Sinto a atração irresistivél e concluo: nada a perder, tudo a ganhar. Isso não vale pra dinheiro, mas... Aqui é melhor, simples assim. Porque aqui não é lá - onde meus demônios têm força e não admitem tranquilidade. 
  • Não estar lá melhor do que estar aqui. Quero dizer: o mundo é vasto, enorme, e, a bem da verdade, não o conheço. Veja: conhecer não é fazer turismo de dias em cada capital. É outra coisa: ficar mais de mês e notar que existem outros jeitos de viver. Quiçá tenha começado isso muito velho.
  • A biblioteca é linda e tem a peça que quero ler. Leio um pouco, mas meu nariz entupido me intimida. Sou o tipo de pessoa que tem vergonha de assuar o nariz em público. Volto, volto logo: a biblioteca é linda e tem a peça que quero ler.
  • Ficar mais é ganhar mais tempo. Ganhar mais tempo é brigar com a morte. Morrer é natural e normal. Morrer não é desejo, é fato. Fatos são o que são e nos animalizam. Porque escolha é a lição humana e a briga Trágica. Édipo luta por isso, Antígona também. Até a Eva - mesmo que no caso dela a escolha já venha como erro. Quero dizer: escolher sempre será o prazer - por mais abstrato que seja. 

p.s

Primeira coisa do dia:

- ler a cartinha da Fabiana.

Poderia ter chorado, mas não chorei.

Em outras palavras: - te amo.

14 de maio de 2012

dia de/da lua é melhor do que segunda.

Espalho os livros pela casa e acendo os abajures.
Ler tomando Malbec é o cão que treinei para me dar a pata e que me satisfaz toda vez que faz o que ensinei.
Deixo os arquivos abertos, o blogue aberto. Encaro el bigodon por duas ou três páginas e volto ao primeiro G. Marquez não-traduzido.
Meu cão treinado se satisfaz com a minha satisfação e lambe minha mão e mexe seu rabo.
É cômodo viver assim.
Fumo os malditos Gitanes e lembro que até nisso já houve glamour. Não lembro quem começou, mas acho que foi o Camus.
Eu, agora, sou uma bicha gorda que tem um castelo no deserto e que, em noites frias, se sacia com  eunucos de 13 ou 14 anos.
O frio promove a elegância e estar longe colabora com certezas antigas e desprezos que têm sua razão de ser.
Troco de livro uma ou duas vezes e releio as coisas antigas.
Imagino Deus, velho e barbudo, achando graça de tudo isso.

12 de maio de 2012

Com o carimbo SUGAR en las manos.

  • Entender um mundo que é maior que o seu. É bom. Saudável de modo geral e preciso de modo específico. De modo geral: é grande, é enorme e é impossível de ser compreendido. De modo específico: você não é o que pensa, você não é só aquilo que pensava e você dança com alegria e espontâniedade.
  • Margot da Alemanha poderia ser linda, muito linda. Mas não é. Apresenta-se com sua sexualidade e isso, faz um tempo, não me parece um bom sinal. (Creio que daí vêm minha implicância com gays afetados: muito fêmeas ou muito machos). A sexualidade não é um cartão de visita ou uma máscara social. A sexualidade é parte da jogada. Alguém que se apresenta a partir de sua sexualidade é como um advogado, um ator ou um físico que se apresente a partir de sua profissão. É normal nos identificarmos com o que fazemos. Mas causa desconfiança ouvir - ou notar - "prazer, sou fulano(a), e sou quem sou por ser advogado, ator, físico, gay, etc".
  • Margot poderia ser livre, ser verdadeiramente livre, se não fizesse tanta questão de ostentar sua liberdade.
  • As Japas explicam de um jeito bem japones: é bom e saudável ser submissa. O homem se torna mais gentil e temos muitas vontades atendidas. É estranho e distante da minha realidade. Uma mulher que não questiona e que acha que assim é melhor. Dá pra entender. Mas não sei. O equilíbrio entre os sexos ainda me parece mais fatal: como se um compensasse a loucura do outro.
  • O produto nacional é suspeito. Sou preconceituoso e acho que a idade determina muita coisa. Todavia, é assim: a mais nova é melhor que a mais velha. Talvez seja uma questão de vivência. Meu Deus, estou falando 'questão de vivência...'
  • Seria um bom homem se eu conseguisse acalmar a Margot. Não sou um bom homem.
  • A inglesa parece triste em seu casal. Falta empolgação naquela pareja. Não sei. Casal internacional que se vê a cada 2 ou 5 meses só faz sentido com muita, muita empolgação. Ou então com amor. Mas amor é bem mais complicado.
  • Eu mesmo: com dancinha e desenvolturas perco toda razão que não tenho. É, em síntese, a razão de eu estar aqui. De toda forma, penso: Margot, eu te amo; Japa, pega no meu pau; Nacional, em 10 ou 20 anos; Inglesa, não entendo essa dança, mas dancemos.
  • Não há tristeza e nem há mortos. Para mi triteza, que me gustam la exajeración. Mas, quiçá, assim de passinho, a oração de mamãe seja atendida. E assim, com Deus no sol e o Diabo na lua, eu siga em outra direção que não a esperada. Essa coisa de seguir, assim ao vento, é mesmo muito sedutora.
p.s. falta margot aqui. margot tem muitos mais motivos pra ser exaltada. é um bom personagem, mas não, infelizmente, uma mulher linda. meu diabinho me diz: ' you can't always get what you want'.  

9 de maio de 2012

bigodon de bruços.

  • A idéia de uma verdade (ou verdades) me parece encantadora. Não sei em que momento histórico o discurso de que 'não existem verdades' ganhou força. Sei que hoje esse discurso está em mil bocas mortas que vêem na dúvida uma virtude honesta. A dúvida não é uma virtude. Ela ocorre, ela é normal. Mas não é uma virtude. E raramente é honesta. Via de regra, os que exaltam a dúvida o fazem por preguiça ou, no melhor dos casos, por incompetência.
  • A certeza é um desejo, a dúvida é um caminho. Quem caminha atoa está perdido, quem gosta de estar perdido é burro. Percorrer caminhos é bom, saber que existem vários caminhos é melhor. Decidir por 'não-decidir' não é uma opção, é um medo de optar, uma falacia que usa requintes semânticos.
  • Tem um treco que me ajudou muito. É mais ou menos assim: admiramos alguém pelo esforço que ele faz. Mas isso não quer dizer que o que 'ele' fez seja admirável.
  • De modo geral: as pessoas não querem ser melhores ou mais inteligentes. E muito menos desejam a verdade. As pessoas querem conforto e continuidade. Algo que as faça sentir bem e que as iluda para sempre. Nessas, entende-se o sucesso do P. Coelho, por exemplo. Ele ilude às pessoas com suas próprias ilusões.
  • O erro dos ecológicos é só um: achar que a Natureza é sábia. A natureza não é sábia. E a justiça natural é a mais cruel que conhecemos: olho por olho, dente por dente. A Natureza, defendida pelos ecológicos, é uma ilusão, uma abstração. A natureza, tal como é, é a lei do mais forte. Nesse sentido, os EUA é o país mais coerente de todos - e isso, vale lembrar, não é sábio ou justo.

8 de maio de 2012

__________________

Gostou quando eu disse que só acreditaria em Deus se ele fosse um velho barbudo.
Deu risada, soltou um 'pode crer' e acendeu um cigarro fazendo 'não' com a cabeça.
Falava sobre coisas bestas. Sobre forças transcêndentais. Sobre a pressão social pós redes sociais.
Eu não ligava muito, soltava gemidos de 'ham' e concluía que só importava o que estava na minha cabeça. A realidade era apenas um fundo para nossa fotografia.
Cabelos longos, movimentos calmos e riu de todas minhas bobagens.
Pensei em amor, pensei em tesão, pensei em carências mútuas que se saciam.
Deus estava no céu e alisava sua barba.
Ela tinha coxas e ria. E eu, agora, a amava.
Feliz pra sempre, eu lhe diria se ela me perguntasse.
Mas não foi preciso.




5 de maio de 2012

Essa capacidade de dizer alguma coisa e se divertir.


Se fosse pra procurar alguma coisa, eu procuraria a verdade.
Mas eu não vou procurar nada - e antes que algum imbecil pense, eu me antecipo:
- a verdade existe: não encontrá-la não muda os fatos.
Então vou vagar pelo Facebook,
vou analisar as pessoas por seus feeds,
por suas fotos compartilhadas,
por seus acessos de sinceridade nas madrugadas de segundas-feira.
Os videos inteligentes aqui e ali,
uma sagacidade vulgar
e os trocadilhos que demonstram erudição e vaidade.
*
Ainda gosto mais de ver as gordas nas espreguiçadeiras,
tomando sol à tarde,
com um suco verde do lado,
lendo a revista que revela:
- os passos para conquistar o amor.
- as posições para o ato sexual.
- as técnicas do boquete-milagre.
- as comidas que ajudam os intestinos.
- a Claúdia Leitte dizendo que estar grávida lhe enche de tesão.

30 de abril de 2012

língua roxa de syrah

O prazer de ler as próprias coisas e gostar. E pensar em projetos gráficos audaciosos. E, por que não?, em ser o vendedor das próprias lástimas.
Em outras palavras: o prazer de sonhar. E de entender que sonho ou realidade tem mais a ver com estilo do que com conteúdo, com fim.
Tipo: o junk da realidade acha que sua realização é fruto de um trabalho árduo; o junk do sonho acha que sua realização é fruto de seu talento.
Seja como for, os dois gostam das próprias realizações.
E tanto faz. E pouco importa. E é questão de estilo.
Estilo, essa coisa-palavra que tão bem o velho Buk definiu.
Então ouço as canções do Leonard Cohen e sinto-me doce, otimista e imagino que conversar comigo hoje seria muito chato.
E tomo vinho barato e me preparo pra ir à uma peça e digo pra mim mesmo:
- sim, sim, continue.   

29 de abril de 2012

É domingo, molho minha boca com malbec e baixo discos.

=
Ouço a Gal-Fatal e tento entender o que diabos aconteceu. Nos dois shows que vi dela não havia alma ou grito. Era uma voz. Não era uma pessoa que cantava, era uma voz que cantava: só uma boca vermelha e iluminada que mostrava uma refinada técnica.
E tem o bom do Caetano-Compositor nesse disco. E, diabos, o que foi que aconteceu com o Caetano? Tentei ouvir o penúltimo disco dele e nem e nada. E desisti porque queria manter o bom do Caetano no meu imaginário.
Penso se é o tempo, a ação do tempo. Se é inevitável que as pessoas piorem com o tempo. Tentei ouvir as músicas do último disco do Chico Buarque. E achei ruim. E tinha uma muito, muito chata. Que tinha uma pegada de blues e umas rimas que, meu Deus, onde estava o C. Buarque, afinal?
Há também a possibilidade de que a ação do tempo ocorra em mim: mais chato, mais implicante. E que seja só isso e que eu tenha perdido a inocência daqueles que acreditam em gênios e seres extraordinários.
O bigodon diz que a necessidade de acreditar em gênios é parecida com a necessidade de acreditar em Deus. Ele diz bem melhor e de um jeito bem mais convincente. El bigadon tem verve e escreve bem, eu repito.
E lembro do belo texto do Skylab sobre a nova mpb. E acho que ele acerta bem, que ele é bem preciso. E que você pode até discordar do que ele diz, mas, vá lá, tem sentido pra caralho aquela idéia. Inclusive no lance de faltar pau e buceta.
De forma que me pergunto: - onde foi parar a buceta da G. Costa? O pau do Chico? O cu do Caetano?
=
Meto a mão no meu livro jamais lido pelos meus melhores amigos. E penso que merda de melhores amigos são esses. E tento entender por que não cobro deles isso e por que, enfim, isso me dá tanto prazer. Quero dizer: meter a mão no livro que nem sei se pode ser publicado e nem sei avaliar. E, vá lá, por que diabos se publica? Por mil motivos abstratos, eu sei. Mas como faz? Porque eu, eu mesmo, sou o travadinho da estrela e definitivamente não sei vender meu peixe. E isso me fode. E el bigadon também fala disso. Digo: dessa capacidade de vender o próprio peixe. E ele, como sempre, fala de um jeito fodão.
=
Devo confessar que te amei - se te amei - porque você era triste. E sua tristeza, é bom saber, é toda a sua beleza. Você alegre jamais será linda. Porque sua tristeza é real e comove gente fraca e cristã como eu. E seus gemidos eram essa canção triste que faz a gente lembrar da infância. E sua alegria me deixava contente porque mostrava o quanto o abismo é profundo. E teve duas ou três tardes em que acho que te amei. Porque foram as raras vezes em que você não pensou se era feliz ou triste.
=
Lembro da escritora hermética que um dia me disse que não escrevia muito no seu blogue porque temia ser roubada. E quando ela postava algo novo, apagava o antigo. De modo que seu blogue tinha sempre uma só página. Um dia li um texto que ela tinha escrito e pensei: - por que ela acha que será roubada?
=
Tesão: dizer pra Japa Teen que ela deve trair seu namorado. Bobagem: dizer pra Japa Teen que ela deve trair namorado. Mistério: por que, sendo tão vaidosa, ela não faz o buço?
=
A beleza do adeus cheio de choro na rodoviária.
Nunca mais uma mulher tão chorosa.
Nunca mais um amor tão decente.  

24 de abril de 2012

A gente faz o que faz, a gente é o que é. Cagar regra é prazer, não é talento.

Agora tomo vinho. Não pela recomendação da mamãe que dizia: - bem melhor do que cerveja, assim até perde essa sua pancinha gorda.
"Pancinha gorda" é coisa de mamãe - que me ama e me adora e me quer bem.
Mas não é por isso. Que tenho minhas rebeldias e algum senso prático.
O frio aumenta e a cervejinha gela os corações. De forma que tomo vinho.
Vinho barato, vinho de quem não conhece vinho. Vinho barato de quem não conhece vinho e que acha que há muitos vinhos caros que nem são tão bons assim.
Tive uma namorada que acreditava que caro era bom. Tive uma namorada que não era lá muito esperta. Tive uma namorada que, enfim, depõe contra mim.
Mas to falando de vinho. E de mamãe.
E, bem, vá lá, gente é um bicho muito circunstâncial.
Eu sou.
De forma que:
- beber vinho no frio é normal, não é virtude nem estilo.
- a oferta de vinho é maior porque a demanda é maior.
- vinho no calor carioca sempre será afetação.
- p.s. a afetação é legítima. A merda é a afetação mal resolvida.
Então vou nos chinos, saco meu 50 pesos e volto com dois vinhos pra casa.
E lembro de mamãe, de ex namorada, de cerveja e de Rio de Janeiro - uma cidade muito, mas muito, sedutora.
E há diabos para lustrar os chifres.
E uma fuga dentro da fuga bastante irresistível.
E o blogue-monstro querendo letrinhas.
E cumpro funções e estudo pra provas e acordo cedo e tenho popularidade em feeds estúpidos e gosto de filmes e de pessoas e também sou a favor da legalização do aborto e da discriminalização das drogas e acho que os gays devem casar e adotar/ter filhos e penso em Deus e tenho angustias e imagino que a felicidade pode sim morar numa vagina e gosto de sorvetes e filmes no fim de semana e vejo filmes de ladyboys e compro livros em sebos e leio menos do que gostaria e concordo com programas assistencialistas e admiro o Fidel Castro e acho a vida bacana e fico triste quando certos namoros/casamentos acabam e estou vivo e penso na vida e o infinito e eu e aquilo que tá certo ou errado e os prazos e os desejos ignorados e a falta de culhão e as almas tristes e eu e isso e aquilo e a coisa toda e a sensação antiga e idiota e espírita e arrogante que diz: sim, sim, eu entendo tudo; e tudo está muito bem. E nem importa que esteja. Que sim é bobagem, que não é bobagem. Que feliz é bobagem, que triste é bobagem.
E lembro da amiga. DA GRANDE AMIGA que um dia disse: - as únicas palavras que importam são aquelas: sim, sim, continue.


20 de abril de 2012

-=-

- o talento estúpido e vulgar que rola por aí.
- os indiferentes que passeiam com ares de superioridade.
- o namorado ciumento usando sua cultura como justificativa para sua possessividade.
- a tristeza que me comove e que me desperta sentimentos cristãos.
- aquela japonesa que olhava pra minha boca e, depois, concluí que era por ter barba e bigode.
- o gringo metido a esperto que acha se drogar uma grande aventura.
- aquela japonesa de quatro. Um jeito de ficar de quatro que era muito... japonês.
- as pessoas de 21 anos me falando sobre suas passeatas.
- os feeds do facebook cheios de lugar comum e preconceito invertido.
- os músicos que cantam no seu ouvido enquanto está sentado no bar e que acham que merecem dinheiro.
- a holandesa que não entende a passionalidade e acha que tudo pode ser mais contido.
- a cerveja de litros.
- os dedos amarelos.
- o dia depois de um dia depois de outro dia.

18 de abril de 2012

small little truths from pleasure

  1. Inveja-Branca, Foda-Amiga, Raiva-Boa. A culpa pela metade, a culpa sem força. Coisa de gente indecisa. Que acha indecisão=reflexão. A verdade ainda passeia no bosque: "OU DÁ OU DESCE".
  2. A moça simpática de nariz adunco postou uma bela música no Facebook. Infelizmente o pedaço da letra que ela destaca prova que ela gosta da bela música pelos motivos errados.
  3. - Estou falando de verdades!/ - Verdades não existem! / - Então não quero falar com você.
  4. Infantil: a)superestimar o sexo, b) superestimar o prazer, c) superestimar a ausência de dor, d) superestimar o mundo, e)superestimar.
  5. Estúpido: achar que ser natural é ser verdadeiro.
  6. Entre japas que ficam de 4 e gringos que se chocam com pedintes de rua, eu descubro: - o reino da dinamarca continua podre.
  7. Coleguinhas mandam beijos, escrevem saudades e dizem você faz muita falta. Acreditar nessas demonstrações de afeto faz com que você tenha muitos amigos.
  8. Não é pessimismo achar o mundo uma merda, eu aprendi. Achar o mundo uma merda é o mínimo que se espera de quem utiliza o intelecto. E seu bigodon me disse de um jeito mais elegante: ou a felicidade ou o intelecto.
  9. Felicidade, se bem entendi, tem a ver com sua capacidade de acreditar nas próprias ilusões. Artista, se bem entendi, tem a ver com saber alimentar as grandes ilusões alheias. Só um artista não-artista fala do real. Artista elabora.
  10. O tesão, como dizem por aí, é um supermercado. Sente-se tesão entre gôndolas infinitas e parece absurdo a variadade de marcas e produtos. O tesão, como prática, está reduzido à dona de casa que compra sabão em pó OMO há 30 anos.
  11. Todo erro será meu. Sou cristão, acredito no livre-arbítrio e Jesus morreu para nos salvar. Mas se Jesus morreu para me salvar e eu não estou salvo a culpa é de quem? Minha, de Jesus ou da Japa fanhosa, com quem tenho que tentar uma besteira?
  12. Uma carta sem reposta é sinal de ingratidão?/ Não. / Um pedido sem retorno é sinal de indiferença? / Talvez. / O silêncio sem posição é normal. / Não, é o erro, a indiferença, é o adeus disfarçado de 'quem sabe'. 

15 de abril de 2012

Relatinho

  • O que deixará mais saudades, o que me parece mais decente, de tudo, é voltar caminhando tranquilo para a casa à 01 ou 02 da madrugada. 3 kms que são como caminhar na praia. E há pessoas pelas ruas, e as ruas são bem iluminadas e na sorveteria da esquina há um enorme grupo que toma sorvete alegremente.
  • Ontem saí com a grigolândia do curso. Uma inglesa, um sueco e uma japonesa (os dois são casados). Incrível como ainda percebem nossa realidade como seus antepassados colonizadores. Estranham o uso da buzina no trânsito, estranham os beijos, estranham o barulho que nós, os de cá, os latinos, fazemos. O sueco, que já morou em diversos lugares do mundo, comentou que a Argentina poderia ser muito mais rica, mas que ela dificultava a exploração de minérios. Não resisti e soltei pra ele no meu inglês macarrônico: os países ricos são os que exploram os minérios nos países pobres. E ele riu, e disse 'verdade', e espero que tenha entendido a minha provocação.
  • Não é preconceito nem nada. É que eles ainda nos vêem como exóticos. E isso, muitas vezes, dá uma raiva danada.
  • Teatro bom, caminhada lenta e quase entrei no que pensei ser um puteiro. Mas não descobri se era puteiro ou um bar gay, pois vi apenas homens entrando. Todavia, ir a um puteiro me parece uma boa maneira de conhecer melhor a Argentina.    

13 de abril de 2012

o encanto dos números e o Brasil como moral à ser seguida.

  1. Nunca gostei de amor indiscriminado e sempre impliquei com o excesso do uso da palavra SAUDADES nos feeds do facebook. 
  2. O bom amor, o grande amor, é, e sempre será, um enorme preconceito. Ama-se à alguém que é superior ao resto da humanidade. Só o imbecil ama alguém comum e acha que isso é normal, que isso é amor.
  3. Os portugueses me ensinaram: saudades é uma palavra chorosa. Eles me explicaram: os brasileiros abrem muito as vogais para falar SAUDADES. E isso faz com que a palavra perca sua beleza de lamento. Os portugueses dizem SuD'Des.
  4. Se entendi bem é assim: não se pode ser tolo e avaliar uma moral fora do local onde aquela moral é prática. Tipo: se um homem matou outro homem na guerra ele pode ser chamado de assassino?
  5. Ler o bigodon tem a ver: a) com vaidade, como não? ele mesmo, o bigodon, é bem claro em quanto a vaidade determina nossas ações. b) com tesão, porque há algo de fodão nas afirmações ditas sem medo, porque aquilo que temos, e que muitos acusam ser intolerância, são, em última instância, nossa capacidade de reconhecer que a moral que rege a humanidade não é uma moral voltada ao 'espírito livre'. c) existe uma sensualidade em ler algo que você acha que é capaz de te transformar. não é que você vai, de fato, mudar. é que durante a leitura, ou melhor, durante a experiência da leitura, você acha que entendeu tudo, porque, enfim, o bigodon escreve bem e com verve. d) a idéia de que o bigodon é pessimista me parece bastante errada. tem a ver com pau na mesa, com assumir o pau na mesa, o 'espirito livre', o não concordar com o resto da humanidade, mesmo que o resto da humanidade seja essa enorme e maioria absoluta. e) ler é, de forma geral, prazeroso. ler um desses caras que são fundamentais para nossa compreensão do mundo é mais tesudo ainda. e repito: el bigodon escreve bem, com verve. é diferente da Bíblia, por exemplo, esse livro tão importante, mas que, sejamos francos, não é lá muito bem escrito - o que, segundo el bigodon, só contribuí para que tantas mentiras tenham sido elaboradas a partir dele. 
  6. O Café tem elegância e afetação. Creio que parte do preconceito brasileiro com os argentinos tem a ver com isso. O Café, esse lugar, é afetado. Mas não há afetação em frequentar os Cafés aqui. Não sei se me fiz entender. É o tipo de justificativa vaga que sempre damos: é da cultura deles. Seria como condenar um índio que trepa com a tia. Índios trepam com suas tias porque não existem tias como nós entendemos. Ah, vá lá, é dolorido prum brasileiro perceber o quanto a idéia de civilidade está à frente na Argentina.
  7. Tipo umbigão: fazendo o curso de espanhol com os diversos gringos fiquei contente por pertencer ao 3° mundo (principalmente ao Brasil) e, por isso, não acreditar no mundo ordenado que eles têm. Porque são limpos, educados, brancos e não entendem muito bem o fato de sermos essa bagunça que dá certo. E no caso do Brasil ainda mais. Porque nós trepamos com pretos, portugueses, alemães e criamos um país que choca por ser tão grande e não ter movimentos separatistas. O colega da Escócia ficou admirado ao saber que eu descendia de tanta gente. Porque ele nunca se misturou, porque ele é o colonizador que não se apaixonou por um bela preta com buceta dourada, porque ele pertence ao mundo que mantêm a idéia de raça, enquanto nós, brasileiros, sabemos que o grande barato é ser vira-lata - como o cachorrinho que tínhamos na infância e nunca precisava das vacinas que os podlles precisavam.         

12 de abril de 2012

A culpa é da revista Claúdia.

Não era amor e nem era pra ser.
Acertar o lugar do clitóris não é ser bom amante,
eu pensava.
Mas estava só e era triste, muito triste.
-
Perdi a mulher da minha vida
porque o alvo era o clitóris
e eu nunca dei muita bola pra ele.
-
O clitóris, eu aprendi na Argentina,
é a conquista
da fêmea antecipada.
-
Em outras palavras:
um alvo,
uma tristeza,
um botão de controle remoto.

9 de abril de 2012

Sabia que seu coração é seu pulso de mão fechada, sabia?

  • "Fugir das paranóias e dar tiros nas cabeças dos idiotas." Seria um título, uma invocação à felicidade. Mas não agora, não ainda. É que as paranóias me alimentam e os idiotas são meus amigos. Ou seja: instinto de auto preservação.
  • Deveria escrever outro e-mail? Não deveria escrever outro e-mail. Mas, confesso, conferi pela 3° vez se o e-mail estava correto. É que tenho tendência a me culpar e o silêncio me mata. Imagino ter escrito algo que não devia, ter ofendido sem saber, essas coisas. Sou um bichinha, confesso. E o silêncio não me deixa atento, me maltrata.
  • O óbvio pode ser cruel. E foi o que ocorreu: o óbvio berrou na minha cara e roubou o picolé de chicabon que eu tinha na mão. O óbvio é alto, altivo e está calmo porque estar calmo é uma maneira de não se afetar por essa coisa insignificante chamada mundo. O óbvio é óbvio e, por isso, já imaginávamos que agiria assim. De qualquer modo, não consigo deixar de me sentir triste ao constatar o óbvio.
  • Não sou da turma e nem turmas tenho. Talvez dois bons amigos e, vá lá, uma família bacana. Penso no que fazer e, pra ser sincero - e lembro que sinceridade só é mérito para imbecis -, não creio que haja tanta coisa a ser feita. Ou pior: não creio que haja coisas que valham a pena serem feitas.
  • Um diz: - talvez ela não te ame mais. Outro diz: - talvez ela precise repensar as coisas. O terceiro diz: - talvez ela nunca tenha te amado. É o pessimista, o otimista e o sincero falando. Quem duvida que o sincero é sempre o pior? É simples: o sincero adora tudo o que ele, o sincero, fala. É um egoísta. Um egoísta burro, é fato, mas um egoísta.
  • A garota de muito amores caiu no golpe. O golpe é infantil: peço informações desnecessárias para que meu sotaque seja percebido. Dou um tempo e pergunto coisas sobre teatro. Daí que todos, no mundo inteiro, podem falar sobre teatro - porque, de alguma maneira, todos têm opinião sobre teatro. Hoje elevei o golpe e emplaquei um café. Nariguda típica, tesão simples e café é tão inofensivo, né? Descobri a morte. O café mais caro da minha vida. Nada inofensivo. Muitos amores pra pouco nariz, concluí. Quem, sendo relativamente decente, fala sobre tudo e todos em um simples café? Fugi. Expliquei que estava atrasado para um peça e quando ela perguntou qual, menti que tinha conseguido um ingresso de última hora, pois a peça estava esgotada. Ela lamentou. Eu lamentei também. Lamentamos por motivos diferentes e, por isso, não era amor.
  • Esse sexo culpadinho que nos dá tanto tesão. Penso nas prostitutas de antigamente, que eram cortesãs e, supõe-se, guardavam segredos terríveis. Agora não. Toda garota triste leu na revista Nova as artimanhas do sexo e as aplicam, devo confessar, com surpreendente habilidade. Estou delirando, eu sei. Mas no delírio, digo: o papai-mamãe se tornou a grande ousadia, o último fetiche. - Cara, acredita que ela topou um papai e mamãe durante toda a transa? - Duvido, mulheres como ela jamais fazem isso!

7 de abril de 2012

A bicha gorda e seu caderno.

Tá assim:
Buenos Aires > 1° dia em minha casa em Palermo. (março/2012)
- Quando se está só, fica-se no balcão. É um belo jeito de se estar só, de se beber só. Lembro de amigos que dizem achar deprimente beber sozinho. Eles não sabem de nada, não entendem de solidão. Não desconfiam que deprimente mesmo é estar sozinho e não beber. Porque a bebida é companhia. E esquenta. E nos deixa tolerante, com as nossas dores, com as dores dos outros.
A bebida amiga fazendo com que menos pessoas se matem, com que menos pessoas matem outras pessoas, com que menos pessoas soquem outras pessoas.
Isso eles não entendem. Talvez jamais entendam.
Tem a ver com solidão.
Com saber que solidão existe.
Tem a ver com não achar que solidão seja um grande problema.
[o cagaregra, o mundinho me abala]
(mesmo dia)
l
-> hum. Será que saí? hum é mó coisa de viado.
Gostar de Fernet é fácil. É amargo, tem gelo e desce bem. Aqui eles insistem em misturar com coca. Deve ter outra mistura. Porque Fernet não foi feito para se beber apenas ele. É bebida de gosto forte e pede algo que suavize. Fernet é, agora, um macho argentino.