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7 de março de 2012

Deus do lado de lá.


Não me importo tanto,
não me importo muito.
O que me pega
é continuar igual tá.
-
Não é alegria,
nem é milagre.
Apenas espero que,
entre fossas e barracos,
exista coragem
pra que a gente
se acuse do que é
e sempre foi.
-
Elevo minha dor
para elevar meus sonhos
e sou calculista
e não me arrependo.
-
A dor fica maior
e me sinto mais fraco.
Mas me sinto bem melhor,
mesmo que cheio de medo;
e concluo que,
com quarenta anos,
terei sofrido
mais
muito mais
do que precisava.
-
"A gente se acostuma",
meu bom amigo me disse.
E ele tem razão.
A luta é só uma:
fugir da mesmice e
aproveitar o dinheiro que se ganha
para viver com clareza
e - por que não? - com alma.
-
E penso em mim
e penso nos outros
e estamos fodidos
e vivemos mal
e ainda achamos
que, mesmo sem 13°,
viveremos com alma.
-
Mas o problema
não é viver bem
ou viver mal.
Nunca foi.
-
Preocupar-se com isso
é achar que
a cobra morde o rabo
apenas porque
assim o ditado diz.
-
Infelizmente
não há culpa
e nem há culpado.
É só o choro estúpido
pelo leite que caiu
enquanto era
tesudamente
derramado.
-
Fica-se feliz por ter o que tem,
fica-se triste por não ter o que não tem.
Não é por somas ou por vitórias
que se aguenta a vida
ou se esforça tanto para viver.
-
São coisas outras
sem nomes
sem contas
e sem somas
que fazem
com que os têm filhos
e coragem
decidam por não apenas dois.
-
São almas tristes
que vagueiam calmas
porque sabem que não há saídas.
São almas infantis
que continuam vagando
porque descobriram
que saídas nunca haveriam
e por isso,
só por isso,
insistem em vagar
. 

12 de setembro de 2011

blocos por conveniência.(s.r)

  • O Carlos Careqa me perturba. Parece-me um grande absurdo ele não ser um ovacionado, um cult aceito, um milagre realizado. Há tanta beleza e tristeza nas cantorias dele. Há algo de muito importante em suas músicas. E, em tese, o mundo devia o conhecer. Mas o mundo... ah, o mundo... o mundo tá mais pra floresta encantada da Disney, sei lá. E o Careqa solta sua voz meio ruim e é genial. E na capa do segundo caderno tá um imbecil que nem cócegas faz.
  • Foi o tempo. Acho. Tenho pensado em coisas importantes. Não estou falando de mim e do meu umbigo agora. Estou pensando sem saber onde chegar: Política Cultural, A Consequência do Investimento Público, a Arte para Além da Coqueluche, a Função Social do Artista, etc. É algo sério, bem sério e que deve ser pensado, bem pensado. Não sei se por mim, se pelo Careqa, pela Fontana ou pelo último bem intencionado que recebeu uma bela fatia do bolo. Insisto mesmo sem saber: deve ser pensado, deve ser muito bem pensado, deve, inclusive, ser profundo e trazer consequências.
  • Meu limite é pensar em mim. Falta-me a generosidade de pensar em todos porque não sou todos e porque não me acho verdadeiramente representativo. Estou velho talvez? Coisa de luta de classes talvez? Mas sou limitado e digo: meu 2011 é bem resolvido, preciso é de um bom 2012 - ou então o abismo, o desespero e todas essas mesquinharias do umbigo.
  • Jesus, na cruz, me dá uma piscadela.
  • Tenho tesão e interesse pelo deboche. Tem a ver com limitação, com campo de ação e com instinto de sobrevivência. Gosto, inclusive, do deboche como manifestação artística. Estou falando sério e Reinaldo Moraes me contempla. Assim como Bukowski, Evrainov, Rabelais, Oswald, etc. Questão de gosto, de preconceito cuidadosamente construído, etc. Erro seria gostar de TUDO. Só imbecis gostam de tudo - o que, todavia, não me impede de achar o Ratinho uma figura verdadeiramente significativa do imaginário nacional.
  • Culpa é como o algodão acumulado no umbigo. Arranca-se com o dedo indicador e o opositor. Dá tesão também. E tesão é diferente de prazer. Prazer é coçar a barriga.
  • Cervejinha e churrasco do Miguel. A vida é besta: nem boa nem ruim, besta: o morno cuspido. E assim as contas, o dia após o outro, as viagens que se programam, os milagres que parecem resolver tudo. Assim: vem cá/não vou, te amo/te odeio, agora/depois. Ah... essa coisinha... Ah... o álcool.... Ah... a moça bonita que se tornou mais bonita.... Ah, os versinhos que eu escrevia na adolescência... os versinhos, os versinhos.