25 de março de 2012

Repare bem.

  • As crianças são, na grande média, felizes. Podemos dizer também que, de modo geral, as crianças não pensam, apenas sentem. Por isso são felizes as crianças: estão próximas do humano-animal, àquele que apenas reage, ou melhor, que sobretudo reage.
  • Conclui-se que não pensar - ou pensar pouco, sendo generoso - é o grande agente da felicidade. Quanto menos se pensa mais feliz se é. Os que sentem, os que identificam a vida com o ato de sentir, são mais propícios ao prazer - ou seja: a idéia ancestral de que felicidade é o prazer e a infelicidade é a ausência de prazer, ou desprazer.
  • Não há verdades, não há fatos. Há, e olhe lá, o 'pensar cientifico'. O 'pensar cientifico' apenas reconhece que somos guiados pelo instinto de prazer ou desprazer. Ele não define nada, não resolve nada. Ele se pretende verdadeiro e, portanto, incólume à sensações e estados de espírito. Não há julgamentos, há contestações. E sempre com um ponto de vista bem definido.
  • O 'pensar científico' tornou-se relativizado. É triste, mas é compreensível. Em última estância nunca há verdade absoluta. E isso foi o 'pensar científico' que disse, não foi o neo-hippie do séc. XXI.
  • O erro fatal, se erro há, é achar que o fato de tudo poder ser relativo, torne inexistente a defesa legítima de um ponto de vista. Em outras palavras: mesmo em erro você pode (e deve) defender um ponto de vista. Porque isso, essa coisa banal que é defender um ponto de vista, é o que te caracteriza enquanto humano. Repare, você não fala de indivíduos, fala de humanidade, de coisas da humanidade. Daquilo que é humano, demasiado humano. (Se você fala de indivíduos, claro está, você é estúpido, apenas estúpido)
  • Pessimismo ou otimismo são valores idiotas, eu li e concordei. Porque tem a ver com prazer/desprazer. E por que, vá lá, quem, em são consciência, vive por conta disso?
  • Não há perguntas e nem há respostas. Há o mundo manifesto que está errado via de regra. Rejubila-se com a dúvida ou satisfaz-se com as respostas. É o mundo manifesto e verdade há sim, como não? Você pode não buscar, não desejar buscar, mas o problema é seu. Verdades existem, mesmo que negadas, mesmo que impossíveis de se alcançar.
  • Fica o não dito. A força da individualidade diante do mundo e a tristeza da solidão. Fica o não dito: sem tempo, sem graça, sem proscratinar a idéia de sucesso. Fica isso, fica Deus e fica a necessidade cruel de contato humano. Porque somos assim, porque lemos as coisas erradas, porque o isolamento não é circunstâncial e nunca foi. Tem a ver com inaptidão, com merdas que rolam, com shit'en'roll.
  • Fazer. Andar. Andar é fazer e fazer é uma abstração. Esqueço do bigodudo e cago minhas próprias regras. Fica assim: tesão passeia/ teatro de estudantes/ tudo varia.   

21 de março de 2012

Toma-se Fernet, neném.

  • O tesãozinho passeia e a cada ônibus tenho uma nova paixão. Há vezes em que desço antes e outras que desço depois. O tesãozinho resiste como um bravo: é um helado argentino no verão carioca.
  • Fazer o que não se faz é um dos motivos de eu estar aqui. Hoje, por exemplo: balada (boliche) em boate cara e gente que não me interessa de modo geral. Danço rap e música eletrônica e concluo: maravilha, eu não sou eu, eu não preciso ser eu.
  • Fernet com coca vai durar. É bom e gosto do amargo que tenta superar o açucar da coca. Bebo 1 até 4. Devo me inteirar mais e ver com o que Fernet combina. Tipo: whiskey e cerveja ornam, já cerveja e vinho, não dá.
  • Muito gringo, gringo demais. Os gringos são fáceis porque estão aí e querem conhecer gente. Gringos não têm critério porque todos e qualquer um são um novo amigo-potencial. Minha birra quer argentinos, quer porteños. Por isso baladas (boliches) não são jogo e nunca serão. Preciso de bares e lugares comuns, onde se vai porque se gosta e não porque se quer conhecer 'gente nova'.
  • Andar é a jogada. Queria ter a pulseira-americana-próxima-moda que mede nossos passos e a distância percorrida. Não por nada, mas porque não tenho a miníma idéia. Se me disserem que andei 5 km direi sim, se me disserem que andei 15 km. direi sim também. Quero dizer: não tenho idéia do quanto ando, mas adoraria saber.
  • Tenho alguma tarefas que inventei pra mim. Amanhã é quarta e as tarefas devem começar na segunda. Tarefas... a gente realmente, e infelizmente, precisa disso. Não preciso ser fiel à mim mesmo necessariamente, eu sei. Mas a pulga me coça: fernandinho, há tarefas boas e prazerosas.
  • Não há um fim específico. Se fosse chato dizia "é um processo", "uma obra aberta". Mas me recuso e sintetizo numa frase canalha e sincera: estou aqui para PENSAR na vida. E, perdão, PENSAR na vida, REALMENTE pensar, não é pouco. É mais, muito mais, do que trabalhar 40 hrs por semana e odiar o trabalho. É coisa de sonho, de tesão, de viver uma vida que não seja apenas, eu disse APENAS, sobrevivência.   

20 de março de 2012

Relato.

Se me perguntassem o que faço, diria que ando.
Pra lá, pra cá, com ou sem direção. Ando.
Cada vez me perco menos e cada vez mais andar me parece uma grande coisa a fazer.
Andar, andar, andar.
Paro no lugar errado e, inocente, peço um frango ao limão. Que frango ao limão deveria ser um frango grelhado, mas não é. Trata-se de um frango branco, com molho de limão escuro e cheiro e aspecto de frango descongelado.
Não há muito a fazer. Reclamar do que? Pra quem? Come-se a 'ensalada', tenta-se comer o frango e paga-se os 50 pesos.
Um dia alguém explica o porquê dos argentinos gostarem tanto de frango...
Então ando novamente e paro e pego um sorvete. Que há sorvete, todos bons, em todas as esquinas. E lambo aquilo e ando e ando.
Os caminhos mais longos, os lugares mais sem sentido. Sem pontos turísticos, sem casas de escritores, sem igrejas que resistiram às revoluções.
Os pretos muito pretos que vendem coisas, os bolivianos muito bolivianos que vendem coisas, os argentinos muito argentinos dentro dos cafés.
Ando mais, confundo Córdoba com Corrientes e descubro que estou na direção certa...
Ameaça de chuva, calle Borges e reparo que sou o único ameaçado pela chuva.
Paro no praça (Cortázar, se não me engano) e leio 3 ou 4 capitúlos do meu livro sobre o teatro argentino, que afinal quero me inteirar das coisas e quiçá aprender espanhol.
A chuva não vem e vou ao mercado. Os piores tomates de toda a América estão na Argentina, eu acho.
Compro 2 ou 3 coisas, vejo produtos que não conheço e preços que provam a falácia do 'tudo barato'.
Na calle Paraguay reparo que choveu.
Ando mais um pouco e estou em casa. (Uma casa boa, pequena, mas boa, num lugar tranquilo e pop que se chama Palermo e que nada tem a ver com o real mundo de B. Aires. Mas quem realmente se importa com o mundo real de B. Aires? Ou mesmo com o mundo real de maneira geral? Eu não e muito menos agora.)
Compras na geladeira, Kiosco 24 Hrs e um tipo de paz.
Banho sem surpresas pela 1° vez e andar novamente. Agora pouco, agora menos. 1 km. 
E há vinho à 50 pesos em todas esquinas.
Bebe-se. Kiosco 24 hrs. Tudo certo.
O que fazer amanhã?
Andar.

17 de março de 2012

Armênia y Chacras.

Se perder é parte da jogada. Tenho os tênis que papai comprou e, vá lá, essa tecnologia toda beneficia horrores os pés da gente.
Juro que é à esquerda e é à direita. A rua que era transversal, na verdade, é paralela. E tá tudo certo. E ando e ando e ando.
Lembrei hoje do livro do Kerouac no qual relata suas flanadas por Paris. Lembrei que devia ter dado esse livro a Fá e que ele, sempre meio atleta meio drogado ( e nem vale usar o catolicismo fanático agora) programava caminhadas de 30 kms por dia.
Lembrei disso porque vi um Punk no ônibus com coturnos e porque, se bem me lembro, o Kerouac usava botas longas pra caminhar. Lembro que nesse livro ele falava da importância das botas.
Daí concluí que comprar um coturno parece ter sentido. Se não servir pra caminhar, terei um pisante que dura anos e anos e que, vá lá, tem estilo pacas.
Fernandinho de coturnos pelas ruas porteñas. Uma fita, uma foto, um novo fato: trocadilho em homenagem ao Aramis.
Ainda bebo meu whiskey com água, mas agora bebo também fernet.
Bebida amarga pra quem realmente gosta de beber.
Eu gosto, eu bebo.

16 de março de 2012

Tudo novo, tudo lindo.

Deus está no ceú e nos abençoa e tudo vai bem, muito bem,
bem demais.
E forço-me a lembrar: pensar na vida, decidir as coisas...
E caminho kilometros por dia e tenho uma casa nova e todas as possibilidades de tudo.
E Deus, do ceú, me pisca e diz:
- vai, gordinho safado!
E as bolhas nos meus pés sararam
e andar pra cá e pra lá é simples e prazeroso
e os narizes das argentinas só melhoram a cada dia.
+
E vejo escolas, converso com taxistas, atendentes de bares ou cafés
e descubro que, na média, na grande média,
as pessoas são boas e generosas,
seja lá o que isso for.
+
E Deus volta
e dá um sorrisinho
e diz: - até logo, neném!
E falo c' Ele
e sim, sim,
eu entendo:
tá tudo certo, bebé!

14 de março de 2012

A garota do banco.

Tão linda, tão amável, tão argentina: o nariz mostrando a direção para o sagrado inferno.
Deveria ter escrito meu nome, meu endereço, meu e-mail, meu telefone, o número do meu R.G.
Não deveria ter escrito apenas o nome dos livros e o nome do autor.
Quiçá amanhã volto lá, pego o papel, escrevo R.G, telefone, e-mail e endereço e, em grande estilo, deixo no papel uma marca de beijo de batom, que terei passado exclusivamente pra isso.

9 de março de 2012

aprendi: afeto é para os fracos.

A beleza é a indiferença e a apatia que não é minha. O registro velho, a falta de reação, a aceitação patética de que tudo siga exatamente como sempre. Então sorrio, penso nisso e naquilo, olho pras belas paisagens e me lembro: é tudo enorme.
Não há identificação real, não há sonhos compartilhados, há apenas a conveniência. Sou conveniente também e agora tenho consiência da conveniência, o que diminui a dor de antes. Que não entendia o porquê de tanta tristeza.
Estar só acontece. Estar só achando que estava acompanhado é que era o problema.

7 de março de 2012

Deus do lado de lá.


Não me importo tanto,
não me importo muito.
O que me pega
é continuar igual tá.
-
Não é alegria,
nem é milagre.
Apenas espero que,
entre fossas e barracos,
exista coragem
pra que a gente
se acuse do que é
e sempre foi.
-
Elevo minha dor
para elevar meus sonhos
e sou calculista
e não me arrependo.
-
A dor fica maior
e me sinto mais fraco.
Mas me sinto bem melhor,
mesmo que cheio de medo;
e concluo que,
com quarenta anos,
terei sofrido
mais
muito mais
do que precisava.
-
"A gente se acostuma",
meu bom amigo me disse.
E ele tem razão.
A luta é só uma:
fugir da mesmice e
aproveitar o dinheiro que se ganha
para viver com clareza
e - por que não? - com alma.
-
E penso em mim
e penso nos outros
e estamos fodidos
e vivemos mal
e ainda achamos
que, mesmo sem 13°,
viveremos com alma.
-
Mas o problema
não é viver bem
ou viver mal.
Nunca foi.
-
Preocupar-se com isso
é achar que
a cobra morde o rabo
apenas porque
assim o ditado diz.
-
Infelizmente
não há culpa
e nem há culpado.
É só o choro estúpido
pelo leite que caiu
enquanto era
tesudamente
derramado.
-
Fica-se feliz por ter o que tem,
fica-se triste por não ter o que não tem.
Não é por somas ou por vitórias
que se aguenta a vida
ou se esforça tanto para viver.
-
São coisas outras
sem nomes
sem contas
e sem somas
que fazem
com que os têm filhos
e coragem
decidam por não apenas dois.
-
São almas tristes
que vagueiam calmas
porque sabem que não há saídas.
São almas infantis
que continuam vagando
porque descobriram
que saídas nunca haveriam
e por isso,
só por isso,
insistem em vagar
. 

5 de março de 2012

morzin

Meu amorzinho passeava com sua capa vermelha. Chapeuzinho urbana cheia de liberalidades.
Falava aquelas besteiras de sempre. Banho de cachoeira, ser feliz, fazer sua parte, ter sacola retornável, etc.
Meu amorzinho era tesudão e tinhas uns peitos que pareciam milagres: grandes e pontiagudos. Eu gostava de tudo, eu concordava com tudo. Sorvete, Paquetá, cinema de shopping aos sábados e comida japa como sinônimo de saúde.
(O amor é essa coisa impressionante. Acha tudo lindo, faz tudo. Ama.)
Meu amorzinho perdeu o tesão e tive paciência. 1 mês, 2 meses e tudo normal. Sexo como vitória, TPM como tolerância e sim, sim, a eternidade está logo após o 9° mês.
Meu amorzinho se foi e nem fiquei triste. Amor demais, vida demais, liberdade demais. Meu amorzinho era lindo e era a chapeuzinho e me chamava de lobo mau.
Meu amor tão perfeito ficando fraco por amor demais, por amor errado, por amar o amor e não um pau, uma buceta, um homem, uma mulher.
Meu amor de conveniência e 1 'casalzinho' de filho. Meu amor matemática e meu amor acordo de casal.
Meu amor ladeira abaixo, atrasando a vida, facilitando a comodidade que é achar que a vida é apenas isso.

3 de março de 2012

Nunca entendi muito bem meus amigos que curtem o Luciano Huck no Facebook.

Agora tenho um espelho e uma balança na minha casa. Olho minha barriga, vejo os três números na balança e penso no tempo que passa.
Quinta Feira conversei com meu bom amigo. Uma sensação velha e confortável de não estar maluco. Porque partilhar agonias e desconfianças melhora a vida. Posso estar só, mas não estou louco.
Conforta saber que existem amigos que não querem a vida apenas como a vida é. Porque essa realidade toda faz mais mal do que bem e porque fugir do esquemão é desejar que a vida não seja essa coisa besta de sobreviver e lutar.
Sobrevivem todos. Amebas, seres uni-celulares, anfíbios, insetos, parasitas, mamíferos. Sobreviver é natural e comum. Não é mérito, não é virtude, não é o motivo da vida.
"Qualquer sombrinha me refresca", me disse ela em um dia inspirado e pensei que a frase era boa e de efeito, mas era apenas isso: uma frase boa e de efeito.

1 de março de 2012

caderninho

Quero ver as coxas de Natália e quem sabe apertar seus bicos de teta. Que das poucas mulheres que tive, apenas uma realmente gostava de pressão nos mamilos. A grande maioria roçadas, lambidas, chupadas e mordidas leves. Nada agressivo como os filmes pornôs insinuam, embora tapas e puxadas de cabelo sejam aceitos com facilidade pela mais pudica das mulheres.
Mas Natália é católica praticante e isso, a gente sabe, melhora muito o sexo. Porque existe a certeza de que o inferno existe e sexo, quando bem feito, tem essa profunda relação com o inferno. Diabos que fazem ondas pelo estômago e contrações que espetam como tridentes.

27 de fevereiro de 2012

Fantasmas.

Os peitos estavam menores em função de problemas na coluna. Lembro de passar a mão e achar que haviam diminuído demais. Mas não me importava. Não muito, pelo menos.
Havia uma decisão que não era minha. Isso me incomodava apenas um pouco. Na verdade o que me preocupava era que a decisão fosse a meu favor, o que de fato ocorreu.
Era confuso e bom. Uma nova possibilidade, a gente dizia. O medo era enorme. Digo por mim, apenas por mim.
O sujeito era bacana e não havia nada de errado com ele. Era meio óbvio, meio comum, meio sem graça, mas só isso.  Um sujeito cheio de dignidade e retidão. Não quis falar comigo porque, enfim, não era mesmo o caso. Mas me olhou e vi seus olhos de homem correto. Quase 40 anos, mas velho d'alma. Aquele esquema de churrasco, academia e cerveja.
Eles saíram para conversar. Havia dignidade na intenção que ele tinha. Eu vi isso, meu medo aumentou e torci para que a decisão fosse a favor dele. Não foi.
Depois ela me explicou sobre amor, apatia e a idéia fixa de que seus filhos só poderiam ser meus. Tinha uma loucura em mim que ela apreciava, me explicou.
Medo do caralho, o futuro todo escuro e aquela mulher que retornava de novo. E pra sempre.

15 de fevereiro de 2012

O álcool e aquela euforia.

Tão fácil sonhar, tão bom sonhar.
Mas o principal: tão importante sonhar.
Essa imensa quantidade de gente que não sonha e me deixa constrangido.
Porque acham que sonhar é coisa pouca.
Como se não houvesse sangue nos sonhos, como se não houvesse dor nos sonhos.
Sonhar é decente e, esquecer-se disso, é a tristeza do mundo.
É a garota que desistiu do príncipe e reclama da companhia do sapo.
(Os casamentos tristes que vi e vejo. Os casamentos que teimam por fraqueza. Os casamentos sem convicção. Os casamentos que enfraquecem casais e maltratam bebês. Os casamentos que ficaram cansados e agora se arrastam pela conveniência de dividir as contas do mês.)
Sonhar porque a outra opção é a morte em vida:
achar que é assim mesmo e que SÓ assim pode ser.
Como se nada mudasse, como se o mundo e o ser humano fossem os mesmos de 50 anos atrás.
Achar que a vida é apenas isso e tornar-se duro para poder ser forte.
Ser duro é triste, achar que não tem jeito é triste, manter a companhia de sapos é triste também.
Que princípes não precisam existir,
que o sonho tá aí e não depende da realidade.
A realidade nunca foi, ou será, uma boa conselheira.
A realidade é o plebiscito que aprova a pena de morte, é o foco da imprensa no alcoolismo do Sócrates-Magrão, é o PT fazendo aliança com o Kassab.
A realidade é uma mulher deslumbrante que te fez pensar em amor à primeira vista, e que já no fim da noite lhe oferece sexo anal à 60 Reais.
A realidade é uma puta linda e barata que insiste em dizer que ser puta foi sua única opção.
Então o sonho. Aquilo que sangra e dá dor. Aquilo que não põe preço no delicioso sexo anal.
É questão de gosto, de estilo, de ambição.
Prefiro o sonho.
A realidade é o inevitável
e existe por si.
A realidade não precisa de invenções
e jamais depende de mim.
E isso, em último caso,
é a mínima explicação necessária.

14 de fevereiro de 2012

Relatinho.

É fácil ser inteligente entre outras pessoas. Mas isso não quer dizer nada, nem mesmo que você é - de fato - inteligente.
Muita vaidade em um único ser e diversas vezes eu pensava: - que merda é essa?
Um tipo de delírio de grandeza, um foco em si que embaça a vista. Falava apenas dos outros (sempre famosos) e me lembrou aquela tirinha que roda no facebook que diz: "pessoas medíocres falam de pessoas". 
Fez sentido.
Pensei no meu acanhamento e no poder do álcool.
Tão fácil ser normal quando se está embriagado...
+
No domingo passado fui ao Turfe - que nada mais é do que o hipódromo e os cavalinhos que correm. Dá pra entender a sedução daquele lugar. Há diversas pessoas, mas sua solidão está protegida. Não sei se me faço entender...
É um ambiente grande, entre uma corrida e outra há longos intervalos e, em certo sentido, você está FAZENDO alguma coisa. Pode ser olhar os cavalos, estudar o programa ou simplesmente reparar nos outros. Graças ao intervalo e as conjunturas para as apostas, você pode pensar em si de um jeito calmo. E quando pensar em si se tornar insuportável, o corneteiro te salva e anuncia a entrada dos competidores.
Então é o momento de FAZER alguma coisa. Você se aproxima e tenta perceber se aquele cavalo e aquele jockey que você escolheu criam uma harmonia vitoriosa. Geralmente não, mas não importa.
A questão é que você tenta enxergar o invisível olhando aquele cavalo e aquele jockey, como se houvesse um mistério que talvez você consiga desvendar e ganhar algum dinheiro.
Joguei em 7 páreos, perdi vinte reais e ganhei quatro. O preço de um cinema com a vantagem de não enfrentar filas.
Na volta, bicicleta de garoto-propaganda do Itaú e a bela sensação de que sim, a vida é possível.   

10 de fevereiro de 2012

Ouvir música clássica e sentir o gosto metálico do bourbon.

Agora sou eu e um tipo egoísta. Falo só de mim e cago pra outros que.
Não que antes não fosse. Não que tenha deixado de ser.
Mas quero dizer:
- qual é, enfim, a grande lição da terapia?
- Pense só em si que talvez seja feliz.
Felicidade não é o caso. Não tenho esse problema. Preocupar-se com a felicidade é coisa pra Ivete Sangalo e pra Xuxa. Eu não entendo de felicidade. Eu não consigo acreditar em que acha que ser feliz é o mais importante. A lista é grande: além de Xuxa, milhares e milhares.
Pensar em si faz mais sentido. É uma pena, confesso. Queria mesmo era me misturar com mais 4 ou 5 e me confundir. Mas não é caso. Quero dizer, não foi o caso. De modo que penso em mim e, em momentos otimistas, urro U-LÁ-LÁ.
Que pra reclamar da vida não  preciso de parceria e mantenho o blogue. Que, ah, vá lá, quem em sã consciência acredita que um degrau após o outro leva ao céu?
Eu não. Eu nunca.
E por ter certeza que o céu existe, eu digo: ele não está no fim de uma escada.
Então vou pensar em mim. Aproveitar meus 30 anos e cagar regras cheio de convicção. Não quero o que eu tenho com quem eu tenho. Talvez queira demais, talvez esteja com pessoas erradas, talvez esteja equivocado. Mas isso não importa pelo mesmo motivo que a felicidade não importa.
Quero dizer: o sentido das coisas não está no cumprimento de suas funções.
É o banquete e não a fome que importa. 
Quando lamentamos pelos que têm fome é porque eles ignoram a existência do banquete; e não porquê lhes falta a ingestão de nutrientes recomendada pela ONU.

9 de fevereiro de 2012

Baixo o Let it Bleed do Rolling Stones e penso que estou atrasado.

  • Há muita dúvida na jogada e nunca tive esse fetiche. Lembro da faculdade de Teatro e da dúvida como virtude e noto que já então eu não fazia parte da turma. Não me encantava com as questões e acreditava em método e Stanislavski.
  • Bom mesmo são mulheres de narinas grandes, largas, profundas. A impressão que aquele suspiro pode lhe engolir. A mulher que te engole. Com a vagina e as narinas.
  • Nota tipo twitter: nunca mais andar de bicicleta usando samba-canção.
  • Nota tipo twitter 2: com as cuecas nas mãos, na fila do caixa da Renner, percebi o tamanho da minha solidão.
  • Ainda na Renner: há qualquer coisa de muito triste nas pessoas que compram roupas sozinhas. Nenhum pitaco sobre ficou bom ou ruim. Nenhum motivo para sair do provador.
  • Concentrar-se nas tarefas simples é muito difícil. Quando é assim, prefiro assistir ao seriados americanos.
  • Gosto das mudanças que surgem de fora pra dentro. Não porque houve uma auto-descoberta ou uma revolução interna. Mas porque no meio do caminho tinha uma pedra.
  • Sempre fui cúmplice dessa mãe que não é a minha. É como seu percebesse sua tristeza e sua rotina de mulher só. Ela não é triste, não é isso. Mas há uma melancolia que sempre vejo em seu sorriso. E também uma idéia maluca que sempre tive em relação à ela: ela adoraria que eu fosse seu genro. Caso eu e sua filha nos casássemos tenho certeza de que ela diria: - eu sempre soube.

7 de fevereiro de 2012

Enquanto passeava de bicicleta laranja pela orla do Rio de Janeiro lembrei das valetas abertas da minha infância

A gente brincava com sapos e girinos e não havia perigo. Criava pequenos sapinhos que eram lindos e para os quais preparava uma bacia com água e uma pedra.
Fazia o pequeno sapo mergulhar e dar saltos incríveis de alturas que, por vezes, o levavam à morte ou à deformidade. Mas não tinha maldade nem perigo e quando isso ocorria bastava pegar outro sapinho na valeta aberta em frente da minha casa.
Havia corridas de sapinhos e também campeonato para ver quem conseguia fazer com que ele saltasse de uma mão para outra.
Lembro de achar lindo ele nadando na bacia e, depois, como um atleta, sentar na pedra para novamente mergulhar.
Não tinha perigo e não era nada nojento.
O sapinho era o livro que eu passava horas olhando.  

3 de fevereiro de 2012

lálélí.

Estou só pela primeira vez. Quero dizer: depois da liberdade. Liberdade que é real e não idéia. Compromissos que acabam e contas pagas.
Para além da liberdade comecei a cumprir os compromissos que inventei: fugir da rotina, beber pouco no bar e escrever uma primeira cartinha. Além do blogue que, vá lá, só faz sentido enquanto prazer.
Tenho ainda uma liberdade pra ganhar. Coisa de contas e, depois, simples pingos nos is.
Daí será a vida toda com todos os sonhos e planos, com todos os conflitos e loucuras, com todos os seres antigos e novos. E mais cartinhas e mais blogues e mais vida solitária plena que é quando penso que sim, as coisas podem dar certo.
Às vezes ninguém percebe, mas sou um otimista. Um otimista tímido, é verdade, mas um otimista. Um otimista que debocha dos otimismos e faz graça com idéias pessimistas, mas, ainda assim, um otimista. E consola-me achar que Maria sabe - e sempre soube - disso.
Em outras palavras: sou simples assim. Mesmo que eu ainda desconfie de todas as alegrias postadas no Facebook.
Otimismo com convicção e com a certeza que contraria meus pares: sim sim, as coisas mudam; sim sim, as pessoas mudam; sim sim, continue; sim sim, um grande passo pode acontecer sem que ninguém veja.

29 de janeiro de 2012

Hamlet se finge de louco e faz justiça com as próprias mãos.

Agonia serena. Era isso que ela me falava. Eu tentava entender qual era o ponto, mas não havia ponto. Era apenas uma negação. Um NÃO sem sugestão de caminhos ou exigência de mudanças. NÃO redondo disfarçado em consciência: o velho medo da precipitação. A idéia de que um dia existirá o momento certo: pra casar, pra ter filhos, pra comprar a casa própria, pra se precipitar. Pensei em dizer "sacrifício é a vida cotidiana e não a arte", mas me calei porque a frase era piegas e também porque não era o caso de criar polêmicas. Queria entender, mas não sei se há o que entender. É o óbvio travestido de ousadia, uma idéia de que fazer a sua parte basta. Talvez em 2022 estejamos preparados, mas o mais provável é que não. Prefiro a frase do Hamlet fatal: "Estar pronto é tudo."

21 de janeiro de 2012

2012

Ouvir as músicas, pensar na vida. Tentar entender o que te dizem. Ser decente, ser bom. Ver os dias de verão em Curitiba como quem sai sem guarda chuva para tomar banhos de chuva. Escrever pros amigos e atualizar os e-mails e feeds e blogues. Ser bom de modo geral, mas sem nunca falar disso. Dar dinheiro pros bêbados honestos que dizem precisar de cachaça e não de pão. Amar as loucas, ter paciência com as loucas, dizer para as loucas que elas não são loucas não. Rir com os quadrinhos do Laerte e ser macho para confessar que as pernas do Laerte são muito, muito tesudas. Rever todas as andorinhas do Laerte. Todas as tirinhas do Laerte. Reler os Fantes, os Bukowskis, os Dostoiévskis. Reler Dom Quixote. Encarar o alemão bigodudo e perder o medo de sonhar. Cultivar medos normais. Não acreditar nesse papo de ser livre, de não ter medo, de ser de todo mundo e todo mundo querer bem. Mais cinema sozinho, mais teatro acompanhado, mais livros na cama e menos no bar. Menos bar. Bar como fetiche e não como hábito. Virar noites com prostitutas animadas. Conversar sobre Deus e coisas espirituais. Mandar cartões postais! Perder a implicância. Com o Caetano, com o Chico, com o Gil. Ouvir o disco novo do Chico. Fumar menos, foder mais e perder pança. Menos cerveja e mais exercício. Fernandinho-atleta em 10 kms corridos por manhã. Ver os velhos que usam gravatas borboletas e entender o homem e sua solidão e dignidade. Mais postais, mais bourbons, mais garotas e menos teimosia. Dedinho no cu, pode. Dedinho na vagina, também. Sexo ainda não. Ter calma, ter muita calma. E criar coisas. Criar fatos. Criar um ' fato novo', eu aprendi. E mais 12 meses de agonia e beleza que, vá lá, a vida é mesmo a merda mais encantadora que se têm.