9 de outubro de 2010

sexta: é quase isso.

Sento na mesa e vejo as pessoas. Não me sinto bem. Penso que estou no lugar errado e encho meu copo com pressa. Talvez o álcool ajude. Talvez.
É uma gente bacana e tranquila. Eu mesmo não entendo porque me sinto tão tímido e deslocado. Lembro do Buk falando do Fante. Salvo as proporções parece ter sentido... sentido... meu reino pelo sentido.
Imagino e deliro. Dentro da minha cabeça há proteção. Eu encalacrado em mim mesmo sou forte e calmo. E ser calmo e forte não quer dizer nada, mesmo parecendo que diga.
As pessoas entram e saem. Bebem, fumam, odeiam, amam, querem saber, querem perguntar, as pessoas. Eu ali e o mundo inteiro. Tudo que passa pela cabeça e, no caminho, tanta bobagem. As pessoas sou eu, o mundo e tudo o mais. O inferno sempre aparece com as mãos dadas.
Falo por segundos. A unidade e a circunstância facilitam. Sou eu falando. Nem minto nem nada. Sou eu. Me acho legal e deliro de novo: eu sei falar com estranhos.
-
Depois.
Eu no bar de sempre. Ouço o que dizem mesmo escondido no meu livro da vez. Tem um idiota que berra contra o Lula... é idiota apenas. A Solange chega e está só. O João, seu namorado(amante na verdade, ele tem família em Maricá e trabalha em esquema de plantão), não está. A Solange está pior do que sempre - mais bêbada e mais infeliz, em outras palavras.
Fecho meu livro e volto pra casa. Meu whisky, minhas músicas e minha timidez idiota. Eu mesmo.
A vida vindo sempre e sempre com as manguinhas de fora... quem entende?

8 de outubro de 2010

sambinha

- Que tipo de idiota usa a palavra burguês hoje em dia?
Eu não queria concordar com ela. Mas era uma grande pergunta a ser feita. Eu soltava sons idiotas, tipo: ahan, humhum, pssss, pssss.
Às vezes ousava um pode crer.
Garotinha tesuda me dizendo pra eu mandar à merda essa gente toda - inclusas as que usavam a palavra burguês. Eu me sentia eufórico. Imaginava que amor passava por aí. Só te ama quem te defende, ela disse.
Guria frasista do cacete. Eu tava onde nunca estou: na balada. Ela era simpática e falava merda de um jeito encantador e... por que não dizer?... profundo... isso mesmo... profundo. Enchia a boca pra dizer merda. Um sotaque sem endereço e uma boca vermelha de batom e também um riso exagerado.
Eu me conhecia e dizia pra mim mesmo: Se ela não me irrita com o riso exagerado é porque eu a amo. Eu estava bêbado, é verdade. Mas meu raciocínio tinha sentido, não tinha? E quando você está bêbado, você não inventa nada, você apenas fala o que já pensou em falar, mas que não teve coragem por não estar bêbado. (Estar bêbado é, antes de tudo, uma desculpa).
Fumava com elegância. Dava tragadas longas em cada cigarro... a bituca vermelha sendo pisada pelo salto... quase um inferno... e as sombrancelhas que eram finas, muito finas, e vulgares. A gengiva grande, os dentes de cavalo e os peitos pequenos... Meu Deus... quase uma adolescente. 24 anos. Chamava-me de cara como se eu fosse seu bródinho.
Queria trepar com ela.
- você é o tipo que se envolve com sexo, cara.
- então me dá, porra.
- hoje não, mas te dou... quer dizer... eu daria pra um cara como você.
Devia ser um elogio já que ela soltou mais uma estúpida gargalhada que não me irritou. As gengivas rosas opacas e os dentes brancos. Tesão...
Garotinha de cinema. Estudante de cinema, quero dizer. Se eu tivesse máquina fotográfica tiraria uma foto dela igual à Lolita: deitada na cama, vestidinho, barriga pra baixo e canelas pra cima. Ela toparia se eu falasse da Lolita. Diria: - sempre quis ser musa, cara.
Mas estávamos na balada e a coisa anda mais rápido do que imaginava. Segunda bituca borrada de batom sendo pisada no salto e ela diz, quase condencendente: - daqui meia hora devo estar aqui, cara... daí você me passa seus contatos... puta prazer.
Eu soltei meu pode crer e ela saiu. Área de fumantes é uma benção pensando bem... voltei meia hora depois e ela não estava lá.
Balada, cara, balada.

7 de outubro de 2010

São crianças que choram e adultos que brigam

.
Eu não entendo porque eles brigam tanto, parecem estar velhos pra isso. Mas o que posso dizer? O que sei eu das mágoas ancestrais e das dores que não passam? Eu apenas os vejo e não entendo. É tipo um ciclo: cavar abismos com pés e depois pedir ajuda para sair do buraco. Tortura mútua, práticas sadomasoquistas e resistência estúpida, dessas que batem no peito e dizem: Eu sou forte. Qual a vantagem real de ser forte? Geralmente é uma gente dura e orgulhosa, cheia de vaidade e auto-suficiência que tenta, em vão, disfarçar o medo. O medo, o velho medo. O medo tá sempre lá. A frase batida pixada na porta do banheiro sujo: quem tem cu, tem medo.

6 de outubro de 2010

não é crueldade, é amor.

É algo parecido com a merda e o desespero. Depois de anos ninguém se entende. E, pior, confunde-se. Culpas em pessoas erradas e friezas cheias de medo e loucuras. Eu sinto o cheiro. Eu conheço. Eu sei. Sou eu mesmo mais velho e mais triste. Enroscado nos meus delírios de grandeza.
Pode não parecer, mas estou falando de coisas objetivas. Tristeza, por exemplo. Isolamento também. Digo pra mim mesmo e pra ele que sou eu mais velho: há mulheres chatas, porém generosas. Mais desesperadas que você, mais solitárias que você, mais loucas e absurdas que você. Mulheres sofrem. E se elas te amam, já era. Você tá fudido. O amor de uma mulher é o que há de mais desejado e mais opressivo. Ao mesmo tempo. Ela te ama e isso é um peso terrível - e é o que você espera e deseja.
Mas existe o inferno compartilhado e também aquele que é seu, só seu. Profundamente seu. O inferno compartilhado tem poucas opções: mata-se a paisagem ou os outros que moram nele. O particular, não. O pecado, nesse caso, é confundir os dois infernos e achar que a sua merda veio de um cu alheio. Não culpe o cu alheio. Ele também tem seus próprios infernos.
Quero dizer: lide com seu próprio inferno e não o misture com o inferno compartilhado. No seu inferno faça o diabo: minta, traia, tente fugir, ria, tome porres, escreva diários, toque punhetas para milfs do facesex. O inferno é seu e estará lá, você reagindo ou não. Convenhamos: ser deprimido pega bem e é uma desculpa quase eficiente. Há drogas cheias de ciência que corrigem isso. Há médicos e há dinheiro pra curar isso. A fuga pode ser uma saída, mas apenas se você REALMENTE conseguir fugir. Fugir pela metade é entalar no buraco: a bunda de um lado e os braços viris de outro.
Eu cago regras, eu minto, eu sofro mais do que você. Eu uso o álcool como muleta e a cada gole, eu bato no meu peito: Fernandinho, o álcool é sua muleta, panacão. E isso é uma estupidez. E é o que é. Não há desculpas ou culpados. Há sonho com medo de sonhar e blogues arrogantes, há sexo como prática de alívio precário e há eu diante do espelho. Eu mesmo. Eu, meu inferno e minhas fugas. Estar vivo é também estar deprimido. Apenas imbecis acreditam em felicidade eterna.
A vida é real e acontece mesmo quando somos cegos, tristes, ricos e solitários. A felicidade é a ilusão de que estamos APENAS vivendo. E nunca estamos APENAS vivendo. Viver não é APENAS. É inferno e gozo, loucura e distração, burrice e ignorância também. A vida é a merda da qual não há saída - e mesmo suícidios são manifestações da vida.
Ela mesma, a vida, essa lazarenta que faz a gente passar por tudo que passa - para o bem e para o mal. Sem critério e sem piedade: a vida.

5 de outubro de 2010

Regrinha.

As santas não frequentam o mesmo lugar que eu e por isso eu fico triste. Ao mesmo tempo prefiro assim: como uma santa estaria ali? É uma gente estúpida e desprezível. Falam merda com a mesma pose dos conhecedores de vinho. Os conhecedores de vinho... quem os suporta? Só os compreendo se os imagino usando esse 'conhecimento' para foder.
Fode-se cus e bucetas com esse papinho que eu sei. Vinho goela abaixo e extremidades se abrem... ah, seu eu tivesse essa frieza toda.
Uma vez ofereci vinho do Porto pra uma guria. Deu certo. Mas eu sofria: o mérito era do vinho e eu me ressentia. Sou um cara limitado. Queria espontaneidade e essas coisas. Eu me fodia. Quer dizer, eu fodia menos que os meus amigos. Paciência...
Então já era hora de assumir: o problema é você mesmo. Parecia uma grande sacada, mas nem era. Apenas um idiota diante do abismo tentando ser sincero: - Deus, perdoai-me, eu sou idiota. E Deus ria seu riso de Deus. Um riso tremendo e fatal. O idiota ficava impressionado e caia no abismo. Deus ria ainda mais. Eu era o idiota.
Não tinha milagres. Havia, no máximo, equilíbrio nos humores. Assim: eu cedia, ela cedia, eu era generoso, ela era generosa. Amor não é bem isso. Quer dizer, pode até ser, mas, definitivamente, não é SÓ isso. Mas eu dizia 'eu te amo' e ela 'eu também'. Imaginava que dali a alguns anos ela estaria perfeita. Ela devia imaginar o mesmo de mim. Justiça Divina, em outras palavras.
Depois? Ah, toda a raiva acumulada e falta de sexo realmente satisfatório. Estou falando do tio Reich dizendo: "Gozar é fácil, gozar bem é que é difícil". Claro que o tio Reich falava disso de um jeito mais elegante, algo como descarga orgástica... não... potência orgástica, ele dizia. Tio Reich sabia das coisas...
Por ora apenas eu. E meu pau - que sou eu em variação de duro, mole e meia-bomba. Por ora eu e meu amor, ops... eu deveria estar falando de vinho e transcêndencia... foderia mais que eu sei. Mas, sabe cara?, é que eu sou muiiito sincero...

3 de outubro de 2010

mideliron

Eu sentado, vendo as coisas, penso que a putaquepariu é um lugar para se chegar. O FODA-SE regendo uma vida que sabe que viver é uma palhaçada confusa e importante. Porque a vida bate na bunda e tem muito talvez e bom senso, e também loucuras e euforias. E dá sempre empate. 1x1 ainda me soa melhor que 0x0, mas, claro está, isso é só um julgamento moral.
Mundo comezinho... cheio de namorados angustiados, mulheres masculinas e animais treinados para competições diversas.
Sou bobinho e tenho sonhos de pureza, eu confesso. A justiça como se a justiça existisse. Deus barbudão e contando histórias. Deus cheio de perdão e compaixão. Deus com respostas pra tudo e simpatia de Sr. Miague do Karate Kid na sessão da tarde.
Eu me sentava no sofá e era o Daniel San. Eu achava incrível a superação e gostava de ver ele porrando os caras no final. Era A JUSTIÇA. E a garotinha beijava o Daniel San na boca e o universo era lindo como um astrolábio. Justiça... maravilha.
Mas nunca mais vi sessão da tarde com aquela paz. E os filmes da sessão da tarde agora são bem diferentes dos de antes. Nem melhores e nem piores, apenas distantes.
Afinal quais são os filmes da sessão da tarde hoje em dia? Não sei responder, mas imagino a Julia Roberts em um deles e acho que a namorada do Daniel San era bem mais bonita.

eu e meus dez dedos.

Roer o osso e ver as pessoas. Elas estão vivas e respiram. Poderia ser um milagre, mas não é. Na multidão de rostos engraçadinhos apenas dois se destacam: a moça à minha frente que usa blusa rosa e a mais simpática do oeste que parecia me conhecer, mas não me conhecia e ria e soltava gritinhos sem me irritar.
Sou simpático. Dou olá e dou adeus. Falo apenas com quem devo. E ouço e falo. E papo bom é pra poucos e raros. Sem desperdício, em outras palavras.
O álcool é um azeite e sorrimos. Estamos felizes, estamos tristes. Catamos nossas conchinhas e choramos pelo o único sofrimento real: estar vivo. E sorrimos pela única coisa chata: deixar de estar vivo. Marionetes usando as bebidas e a fala. Planos e países incríveis: sorrisos e desesperos de mão dadas.
Minha casinha e rádio uol. Música clássica e torturas em notas geniais. E também mistérios, tesões, tédios, perda de tempo e esperanças vãs.
Somos tristes, mas vivemos bem. O coração, a mente e o pau após o esporro. Vazamos, vazamos sempre. Há uma constância de qualquer forma... coerência torta e fatal.
O berro mais frágil e mais bonito, a criança mais feia e mais amada... a música cheia de notas loucas e climas terríveis... o tesão... o tesão...

1 de outubro de 2010

relatinho.

  • Fechar os olhos e sentir o gosto do whisky na boca. Lembrar dos sonhos que existiram. Das promessas de amor, das fodas perfeitas, da sopa de um dia de inverno. Era estúpido e feliz. Pra sempre... o riso e as repetições que confirmavam o sentido. Tão bom saber, de antemão, como ela reagiria.
  • A megasena à 76 milhas. Ficar milionário deve ser um problema. O que fazer quando você pode fazer tudo? É indecente... tão mais fácil ser obrigado a sobreviver, se sustentar e suar pelo pão. A alegria mais genuína: animas satisfeitos com o próprio suor. Quem entende?
  • Conversando com amigos vejo que os artistas são uma gente fudida. Sempre esperando, sempre achando que, cedo ou tarde, AQUILO virá. A vida real arranhando nossas costas e endurecendo nossas articulações. Crueldade de mãos dadas com os sonhos. É insuportável. E, no caminho, a desistência de gênios incompreendidos. E tanto faz se fossem gênios ou não. A desistência lá: tornando amarelas as páginas escritas, fazendo a boca do cantor ficar torta, deixando rouca a soprano... essas coisas.
  • A auto-critica nociva e perturbadora. Bem mais simples dizer: faz e depois vê. Habilidade distante, gente distante, mundo distante. Qual a vantagem de saber do erro e da farsa? A verdade é que não tenho a elasticidade suficiente pra chupar meu próprio pau. E as opções são poucas: ou isso ou a cegueira. Desconfiar de tudo é uma prisão.
  • Nunca mais uma foda genial após um domingo bêbado. Assim: prepara almoço, resolve beber com o almoço já pronto, bebe e fala, bebe muito e fala muito, resolve-se trepar e trepa-se bêbado e insano num domingo lento, daí dorme e acorda às 17. Esquenta-se a comida e come como só a ressaca e o pós-sexo incrível permitem. Há paz. Ver Fantástico pode ser uma bênção.
  • Senta o cu e escreve. Faz de conta que a vida não é real. Escreve. Faz isso por horas. esquece a merda e a vida real e também os idiotas que ganham dinheiro mais por capacidade social do que por competência. Ignora o real simplesmente porque o real não presta e nem é justo. Seja egoísta, mas não faça concessões pra si próprio. Se quiser ser vegetariano, seja - mas não ache que está contribuindo para a melhora do mundo.
  • Deixar a platéia ouvir o bolero de Ravel no escuro será a próxima cena da peça que não fiz e que talvez nunca farei. A evolução lenta bem lenta. A luz vindo lenta bem lenta. Em cena só uma garota com um cesta de flores na mão e dois caminhos pra escolher. Enquanto a luz e a música evoluem, a garota apenas olha pros dois únicos caminhos que pode pegar, mas não consegue se decidir. Quanto mais forte é a luz e a música, mais indecisa ela fica. Subornos e vantagens aparecem de um lado e do outro. A indecisão só aumenta.
  • A chuva acalma os otários e eu estou entre eles. Sinto-me bem com o barulho da chuva e também com a tarde cinza. Parece provar alguma coisa. Bobagem, eu sei. Mas saber que algo é bobagem não quer dizer nada. A gente gosta da merda e têm piedade. A gente é legal e educado: damos beijinhos ao nos encontrar.

30 de setembro de 2010

merda.*

Acho viver bem estranho
e isso já faz tempo.
Mas agora apenas digo:
eu nada entendo.
* há quem chame isso de serenidade... credo.

28 de setembro de 2010

Mulheres podem te acalmar.
Ou então te levarem para o inferno.
Mulheres são loucas e perigosas.
(Talvez seja
apenas por isso
que elas gostem tanto
de Budismo e religiões
que pregam
o caminho do meio
e a ponderância)

25 de setembro de 2010

"A memória é uma prisão"

Lembro dela exaltando a dor,
falando de como suas tragédias tinham a deixado forte.
Lembro dela em um dia de chuva,
reclamando e dizendo que a vida era uma merda,
que não havia justiça e que eu era um idiota machista.
Lembro de uma cãibra durante uma foda
e do desprezo que ela sentia por mim e
de como isso me dava um tesão estranho e doentio.
Lembro das tardes de inverno,
sempre lembro das tardes de inverno,
mesmo quando elas não existiram
e eu as inventava
bebendo whisky durante tardes de domingo.
Lembro dela exaltando a poesia do Renato Russo,
dizendo literalmente a poesia do Renato Russo
e eu sentia esse ódio cheio de tesão
e nós fazíamos amor,
mas só falávamos eu te amo quando
trepávamos de quatro.
Lembro dela colhendo flores e dizendo
que queria morar numa casa ensolarada,
onde teria um cachorro e dois filhos machinhos.
(Ela ria quando falava machinhos...)
Lembro dela preocupada com a feridinha que apareceu em sua buceta
e lembro da pomada que o médico recomendou
e que eu passava nela e ela em mim.
E o nome disso era Amor.
Lembro até da gente fazendo planos:
cachorros, gatos, filhos machinhos
e jardim com cebolinha, salsinha e manjericão.
Lembro de tudo ou quase tudo.
Lembro da noite fria em que ela teve pressão baixa
e peguei sal do cara que vendia milho cozido
e a gente sentou no meio fio
e ficamos beijando por horas.
Lembro do seu cabelo pintado de loiro
e das confusões que arranjávamos para espantar o tédio.
Lembro que, mesmo assim,
a gente não conseguiu espantar o tédio.

23 de setembro de 2010

quinta feira no rio de janeiro.

Está um dia bonito e ontem (ou anteontem?) começou a primavera. Lavei roupas, comprei verduras, toquei 6 punhetas e agora fumo um cigarrinho enquanto mamo uma cerveja em lata.
Tenho coisas para fazer e para pensar. Todo imbecil na terra tem coisas para fazer e para pensar. Eu entre eles. É quase uma tristeza, mas apenas quase. A vida besta e bonita, em outras palavras.
Quero falar sobre São Paulo. Sobre beijos em calçadas e sobre porres cheios de vitalidade. Mas agora não. É como disse: tenho coisas pra pensar.
Então faço contas e programo grande textos a serem escritos. É o que os chatos chamam, com emissão afetada e sibilante, de processo. Ou melhor: proccessso.
Fico remoendo a imagem. No caso, beijos em calçadas. A partir daí vou inventando umas coisas e juntando outras, incluo delírios e deduções baratas, aumento mentiras, crio verdades e, quando for escrever, eu mesmo estarei confuso sobre o que pensei na hora e o que pensei depois quando já me imaginava escrevendo sobre. Uma confusão que me agrada e me dá tesão: deturpar a realidade que, enfim, nem existe assim tão real e absoluta. Uma merda velha.
(sempre lembro da pesquisa de alguma revista científica que li que dizia que pro cérebro não havia diferença entre o vivido e o imaginado, que no cérebro tudo [ verdade ou mentira ] era processado na mesma área)
Penso no risco e nas confusões. Lembro da louca que achou que eu tinha escrito pra ela e também da outra louca que me cobrou por coisas que eu nem pensava, mas tinha escrito.
A confusão que me agrada e me dá tesão.
Minha doença mais terna e gratuita.
Minha diversão de nerd.

22 de setembro de 2010

mulheres lindas do meu lado.

Elas falam sobre seus maridos e namorados.
Mexem as bocas vermelhas com delicadeza e precisão,
têm gestos elegantes e piscam de maneira belíssima:
as pálpebras descem lentas e
se apertam por um milagroso segundo.
Então os olhos surgem imensos, úmidos e pretos - e também profundos e abissais -
e revelam aquela coisa terrível que a gente chama de alma.

21 de setembro de 2010

meu a-ha, u-hu.

É tudo um golpe ou um tipo de golpe. Tanto faz. Estilo é a parada, né Tio Buk? Golpe com estilo e eu acredito porque sou fácil de enganar. Porque a realidade é essa bobagem que a gente toca adiante enquanto pensamos nas coisas importantes. Por essas os políticos são a corja que são. Eles fingem se importar com a realidade. Mas eu não estou falando de políticos. Estou falando de teatro. De milhares e milhares de teatro que fazem sucesso sem mérito algum. É isso.
Mas mérito é coisa de fracos, assim como decência, amor, competência e inteligência. É o Peréio quando diz: "não precisa ter pau grande, precisa ter cara de quem tem pau grande." Mas o Peréio tem o mérito e a inteligência do humor. Ele ri. Ele sabe rir. E quem realmente sabe rir? Eu não estou falando de rir com o Jô ou com Stand-Up. Estou falando do riso que brota a partir da visão da merda. Vê-se a bela bosta e ri. O deboche do capeta, tá escrito no livro. O riso é a máscara que o diabo deu aos humanos, tá em outro livro.
Mas quem ri? Quem ri mesmo? Rir e se enganar é possível? Deus! O Jô é apenas engraçado. Tô falando de riso e também de delírio. Sem concessão. Rir quando não pega bem e quando há sangue nas gengivas sem dentes. Rir sem dente, rir pela ausência de dentes.
Não dá para crer no sucesso das peças de teatro que fazem sucesso. Porque na grande média o sucesso é um engano. Ta aí o P. Coelho, o valor cultural do Funk Carioca, a consciência ecológica do J. Serra e a aceitação da diferença como estratégia de omissão.
Há que se ver a merda. Há que se ver a merda e rir. E só assim. Sem desculpas, sem sacadinhas, sem verdades da moda.
Só o hipócrita salva, só ele, só ele. Porque ele é cínico e sabe da farsa. Ele não acredita na farsa. Ele usa a farsa. Ele é hipócrita e mente em benefício próprio. Ele é bom por isso. Ele é o cretino que sabe que a mentira e a verdade são apenas convenientes ou não. O Hipócrita é o que eu quero ser, claro está.
Tirando isso há a curtição do facebook, os comentários em blogues e os seguidores de twitters. A farsa como instituição e o aumento da confusão: seja nas estátisticas eleitorais, nos imortais da ABL ou na criança que ganha prêmio por imitar adultos no programa do R. Gil.
São gracinhas e jogadas. A gente participa querendo ou não. Por inconsciência ou cinismo.
Cá comigo ainda prefiro o cinismo.

20 de setembro de 2010

#

Cheiro meus próprios dedos pra me reconhecer. É uma tática antiga, estúpida e quase eficiente. Voltar demora, chegar em casa demora, sentir a doce e produtiva solidão demora também. Tento pensar pra frente, mas não consigo. O futuro é sempre um tipo de abstração. Faço minhas obrigações, cago no meu banheiro e, no hortifruti, compro legumes e saladas como se eu fosse o cara mais saudável do Oeste. O rádio tá ligado na cbn e tenho que lavar camisetas e cuecas. A vida parece besta, mas mesmo assim é agradável. Há coisas à fazer, sempre há coisas a fazer. Parece indecente esse fazer-fazer sem fim. E é.

11 de setembro de 2010

Deve rolar em Sampa/Capital no dia 18 de Setembro - se tudo der certo na Dona Roosevelt.

9 de setembro de 2010

essa euforia é todo um tesãozinho.

Ter paz na tarde chuvosa do Rio de Janeiro e ver que o cinza do dia nem é nada tão sério.
Porque tem essa gente que se deprime por causa do tempo e desse mal eu não sofro.
E tenho muita merda, sofrimento e revolta, mas besta eu não sou.
Que, cá comigo, acho bem patético e vaidoso essa coisa de se deprimir em feeds de facebook.
(meu limite de patético e vaidoso é meu blogue - essa coisinha aqui que até punhetinhas me rende)
Então mexo no meu pau sem foda e penso que tudo é uma grande bobagem. A euforia é uma grande bobagem. A depressão também.
No espelho do elevador reparei na minha pança. Ela é grande, branca e parece crescer. Mas o pior é: nem me importo.
Lembro do meu pai falando da diabetes que virá via gene, da ex que me queria saudável e da boa amiga que diz, quase suave: Fernando, você sabe que engordou demais nos últimos anos.
E, contra mim mesmo, reflito bêbado e falsamente profundo: melhor ter pança do que não ter alma.
Lembro de todo mundo e da última louca. Tento entender porque eu e as loucas nos aproximamos e tentamos, sempre com muita incompetência, nos envolver. E fico apavorado ao cogitar a coisa triste e óbvia: era claro que não daria certo.
E insistir no que não dá certo é a sabotagem mais clássica de toda auto-ajuda.
Agora ouço bebop e concluo que trompete é bem mais tesudo que violões, pianos e sambinhas tradicionais tocados por garotos da zona sul.
Eu já falei sobre alma nesse post, não falei?
-
Mais um cigarro pra dentro e a infelicidade de imaginar que a vida longa parece ser a vida saudável.
É que preferia morrer velhobemvelho e fumante e bebendo e sem exercícios.
Mas quem sabe o que?
E o que seria da regra sem a exceção?
A cerveja é gelada, o cigarro é mais prazeroso do que imaginam os não-fumantes e meu pau, bem... meu pau ainda impressiona as adolescentes de Botafogo.

7 de setembro de 2010

queria bem enfiar-lhe a pica. seria minha maneira mais sincera de lhe dizer saudades.
você igual, você eufórica.
eu dentro e você soltando aquele riso frouxo e dizendo meio idiota "- você por aqui?"
o afeto seria uma linguada no rabo.
depois banhozinho e casa. nada de conchinha, nada de pé gelado, nada de "bom dia, faz café?"
ligaria a TV e acenderia um cigarro. olharia meu pau melado e passaria meu dedo no prepúcio.
o cheiro de látex da camisinha.
a maldita camisinha, a maldita camisinha.

4 de setembro de 2010

Estranho e lento.

  1. Daqui a pouco devo esquentar a pizza. Lembro de J me acusando pelo excesso de pizza.
  2. No som um Nick Cave que é do Renatinho. Ouço, mas nem sei se gosto. Penso, com minha pança branca e mimada, que é le-ê-gal ouvir Nick Cave.
  3. Daí lembro do Bortolotto quando ele fala que ta ouvindo um disco. E sempre parece que ele tá ouvindo o melhor disco do mundo. E várias vezes ouços os discos que ele diz, mas nem é igual. O lance é o jeito como ele diz.
  4. Amanhã, após 2 meses, não haverá peça. Era cansativo a obrigação de todo fim de semana chegar cedo ao teatro e arrumar as coisas. Depois torcer pra que houvesse platéia e que o espetáculo fosse bom - porque teatro (quem faz, sabe) nem sempre é bom.
  5. Matava minhas tardes de sábado e domingo, mas ajudava a dar sentido pra vida. É besta, eu sei. Mas é real: com aquela peça em cartaz eu não tinha nenhuma dúvida de que eu participava do mundo.
  6. Penso que preciso de uma foda. De uma BOA foda. Foda-Fantástica. Aquela coisa de trepar e realmente sentir a plena descarga sexual. Sentir a morte durante o orgasmo e não se importar. Se abandonar praquela buceta que envolve seu pau e, secretamente, pensar: morrer ou viver não é importante.
  7. Imagino M me dando. Ela chega até mim, se apresenta e diz algo fatal. Fico cheio de medo. Entendo que se eu quiser treparemos e me apavoro. Desconfio do porquê M me daria e fico triste ao lembrar que ela lê meu blogue e que, muito provavelmente, quer me dar apenas para ler o que escreverei depois. A vaidade de mão dada com uma enorme bobagem. Como M não mora no RJ, eu me acalmo.
  8. Tem uma foto que vi num blogue aí. A foto era de uma garota. Esse blogue aí é de uma garota que é mãe de uma garota de uns 12, 14 anos. E achei que a foto era da filha e não da mãe-dona-do-blogue. Por sei lá que motivo, na solidão livre da internet, me senti profundamente constrangido. Até hoje, quando vejo esse blogue aí, lembro disso e me constranjo. Quem explica? Freud não, eu acho.
  9. Delirei com uma resposta. Sempre deliro com essa resposta que nunca veio ou virá. Talvez a cisma católica dos milagres, talvez o gosto pelo impossível ou, talvez, apenas o medo de nunca ter algo como aquilo. Porque o real é constrangedor e estranho. E quando o real é belo é ainda mais estranho e constrangedor.
  10. Coisas existiram. E, quando as vejo à distância, sinto a tristeza mais bonita do mundo. Acho até que sinto paz.