10 de setembro de 2012

  • Minha vizinha se tornou linda em segundos. Quero dizer: tornou-se. Porque assim foi. De repente, em questões de segundos, ela era linda. Verdadeiramente linda. Disse pra ela: L-I-N-D-A. Mas acho que ela não entendeu. Supôs que era frase de efeito. Pior, disse: é só porque vou me mudar, né? Não era. Mas, vá lá!, ter uma vizinha que se torna mais linda porque vai se mudar é uma história bem melhor do que perceber que a vizinha é linda depois de a ver em um Karaokê Gay. Eu entendi. Meio triste, mas entendi.
  • É você. E você é si mesmo. Quero dizer: não importa ninguém. Porque motivos para 'não' não importam. O egoismo é a velha lição.
  • Egoismo bom é meio assim, disse el bigodon: se te dá conforto é bom, se não, cai fora. A não ser que queira ser mártir. E ser mártir, se bem lembro e entendi, é a vaidade mais escrota de todas.
  • Deixei um bilhetinho embaixo da porta. Bilhetinho-sincero-tipo-bêbado: Vizinha, você é linda.
  • Penso em Deus. É inevitável. Mulher me faz pensar em Deus. E isso não no sentido positivo da coisa. Porque Deus, a gente sabe, faz mais sentido quando é mal. Aquela justiça primitiva de olho por olho, dente por dente: mulher.
  • Minha vizinha vai só melhorar, eu sei. Mas sou discreto e tenho auto-controle. Ouço sua porta e reprimo meus impulsos mais primitivos. Agradeço ao Deus mal que ela vai se mudar. Porque Deus sabe das coisas, eu aprendi. Mas, de qualquer maneira, sempre espio sua janela quando penduro meus lençóis.  

8 de setembro de 2012

a ideia é que há algo a entender, mas não há algo a entender.
você pensa em deus, pensa nos amigos mortos, tenta lembrar de um ente querido.
inventa, como não?, uma possível mensagem subliminar.
- e então? qual vai ser?
você disfarça, faz uma piada boa, solta uma frase de efeito e lembra que o nelson rodrigues sempre foi genial.
- mas afinal quando é que você vai terminar o serviço?
não há nenhuma chance de interpretação, nenhuma metáfora. piadas e frases sem o gênio do nelsão.
- minha casa é pra lá e a sua pra cá. qual vai ser?
você lembra das danças, dos poucos boquetes perfeitos que existiram.
você lamenta profundamente não acreditar em deus.

2 de setembro de 2012

Fazendo gestos com as mãos e fazendo de conta que é expressivo. A confusão mais antiga de todas. A confusão bíblica. O suor como virtude para o pão, o macho e fêmea os criou como coqueluche cúmplice de merdas variadas.
A maioria absluta e terrível. Os casais de merda - minha mais sincera tristeza.
Quero dizer: por não querer comer merda sozinho, arranja-se alguém para comer junto.
A triteza mais triste: gente incapaz de comer merda sozinho. Ou pior: gente que esquece que come merda porque não come só.
Mas não há nada a ser provado.
É mais a pulga que coça e lembra que o óbvio é discreto a olho nu.
...

25 de agosto de 2012

O que sempre falta, então a gente faz. Teimosia, meu amor. Tesão de teimosia, conhece? Lembra?
Essa coisa de ir, de fazer, de mexer o corpo pra se enganar e dizer pra si próprio: estou vivo. Participar da mentira e se divertir com isso. Dar oi para desconhecidos, comprimentar, dizer prazer e dizer o próprio nome. Tomar carona e falar ao celular. Dizer até logo. 

20 de agosto de 2012

aquele amorzinho antigo que coça.
tipo frieira; dor e coceira - prazer misturado.
tem a ver com muito tesão e pouco sexo,
com rancor enrustido e ultrapassado,
com prazer de dizer adeus.
aquele tesãozinho chinês,
a oriental que sempre geme de um jeito estranho.
o amorzinho
e o tesãozinho
andando sempre
lado a lado.

27 de julho de 2012

Faz tempo que não venho aqui.
Os sentidos se perdem. Às vezes para sempre. Às vezes não.
Não sei qual é o caso, mas não importa.
Tava nos meus arquivos catando coisas e caçando sentidos. Daí vi isso, que é bem antigo e sem data. Lembro que comecei em 2.000 ou 99. O alimentei por um tempo e depois parei. Quando tentei retornar, acho que 2006, não consegui.
Na época pensei que era um pedaço da adolescência impossível de ser retomado ou mexido.
A última vez que alterei o arquivo foi em 2009, mas não sei se foi quando escrevi isso.
De toda forma, segue:
=
=
herói e fernando:
 

Fernando: herói me diz uma coisa.

herói: fala.

Fernando: você tem medo da morte.

herói: ...não, acho que não...

Fernando: Faz tempo que eu não venho aqui...

herói: eu sei...

Fernando: você deve Ter mudado muito, deve estar diferente...

herói: não sei...

Fernando: Você me irrita, herói..

herói: Por que?

Fernando: Porque você está aqui há muito tempo. Não caga nem sai da moita(herói o olha) É uma expressão herói(ele o olha) Uma maneira de falar...

Herói: E você? Você faz diferente? Caga e sai da moita?(fernando fica em silêncio) A única coisa que eu posso dizer de mim é que eu faço muita coisa, mesmo que eu não cague e nem saia da moita...

Fernando: Eu odeio isso em você herói...essa mania de repetir as coisas...parece que é uma maneira de você ganhar tempo...Ter volume...

Herói: (revoltado) Volume de quê? Volume...

Fernando: Como de quê? De páginas, meu bem, de páginas.

Herói: Mas isso é coisa sua. Não me diz respeito. Eu apenas sigo suas manias...

Fernando: Então é culpa minha?

Herói: Claro! Claro que sim. Você fala e não chega a nada. Parece até que você foge, sei lá....será que você foge?

Fernando: Como assim? Fugir de que?

Herói: E eu sei lá? Mas as vezes eu penso sozinho, sem ninguém dizer nada, e eu penso que você me usa...assim como sempre as pessoas fazem se fazer de conta que a vida tem algum valor, algum sentido, sei lá.

Fernando: Porra, herói, se você disser isso fudeu de vez.

Herói: Eu to cansado, cara. Eu me repito e você não me ouve. 

Fernando: Mas não é assim, Herói. A gente tenta chegar em algum lugar. Todo mundo tenta. É normal que essas coisas demorem, é normal que essas coisas se confundam...

Herói: Ta, ta. Pode ser, mas vamos combinar que isso cansa, oras. É demais, é tempo demais.

Fernando: Ta, ta. Mas o que você que que eu faça?

Herói: Quero que você decida e pare de me usar. Pare de fazer de conta que ta tudo bem e que as coisas têm que ser assim. Não têm que ser assim. Isso só depende mesmo é de você. Decida aí, cara.

Fernando: Herói, mas você nem fala cara. Por que ta falando ‘cara’?

Herói: você é mesmo muito cínico...

Fernando: ta, ta. Eu admito: sou cínico. Então vai lá e resolve tudo. Eu vou ficar aqui, do mesmo jeito, vou ficar inventando minhas mentiras e vou te usar de novo. Pô, herói, achei que teria jeito, sabe? Quando eu comecei isso aqui eu achei que teria jeito, mas não tem. Sei lá. Mas é como se antes as possibilidades fosse maiores. Agora não. Agora tem eu e você. Você que é meu produto, entende? Uma merda.

Herói: Ta. Mas o que eu faço então?

Fernando: eu não sei, não sei.

Herói: você que manda. Então vou ficar aqui. Esperando.

Fernando: Espera herói, espera.

2 de junho de 2012

=-=-=

  • A enorme capacidade de amar que ela tinha. Era superior nesse sentido. "Ser amado" é confortável e acalma. Ela não: ela amava e sabia que 'ser amado' não era tão importante assim. Então amava, e amava muito, e, por isso, por poder amar só, era feliz. E por algum tipo de magia sempre ocorria o encanto: ao amar tanto acabava sendo muito amada - e isso, infelizmente, é muito raro.
  • A cocaína nunca foi um problema. Era uma droga recreativa, uma diversão de 4 ou 5 vezes ao ano. Deixou de ser quando vi a merda toda: a compulsão do viciado virando garras e ferindo os outros. Virou tabu, gerou sisma. Hoje, ao ouvir uma história, tive a triste certeza: ele usa cocaína. Mas não falei nada porque não sei de nada e porque apenas supus. Meu achismo comprovou o óbvio: a cocaína virou tabu.
  • A inteligência sempre é admirável - mesmo quando não fala nada ou fala pouco. A inteligência, de forma geral, não é chata. Um chato inteligente não existe, por exemplo. Mesmo que um chato possa ter muito, MUITO conhecimento, ele jamais será inteligente. Ou se é chato ou se é inteligente. E vale lembrar: o chato, na média, faz muito alarde; já o inteligente tende a passar despercebido.
  • Lembrei da frase que escutei e que não lembro o dono: " A ironia é a tristeza do inteligente." Puta frase, né? Eu acho.
  • Eu poderia me apaixonar por aquela guria. Por achá-la gostosa, por acha-lá bonita, por imaginar que conversaria horas com ela. Mas a paixão não depende só disso: tem o tempo, a repetição e a manutenção das primeiras impressões. A paixão se diverte porque deseja ser corriqueira. Mas a paixão, como tal, é bem mais imprevisível. Talvez por isso eu implique com gente que diz: "sempre me apaixono", "vivi várias paixões" ou "sou um apaixonado(a)."
  • Percebo o nó na garganta da amiga. Digo: chora aí, bate aí, grita aí. Ela grita, bate um pouquinho na almofada que lhe mostrei, mas não chora. Tudo certo. O ser humano é essa coisa estranha. Muita dor presa, sobretudo nos mais livres. Doer é existir - e dor, em 99% das vezes, se sente lentamente e sozinho, é inevitável. Então amiga, te digo: põe aquele disco triste e bebe aquele vinho guardado; e não esqueça de estar só, muito só.
  • O tempo apaga as pessoas. Amigos que passam e deixam de existir. Ainda existem, mas não são reais: a amizade que só faz sentido em outras épocas e outros contextos. Lembro do meu pai dizendo: " a gente era muito amigo e viajávamos juntos, mas acabou: os filhos cresceram, os sonhos e trabalhos mudaram e fomos perdendo contato. É assim, é normal. As amizades tem muito a ver com uma época."
  • Nem toda despedida é triste. Perde-se contato, muda-se de idéias e, querendo ou não, as coisas mudam. A mudança, per si, não é boa ou ruim. A mudança ocorre, apenas ocorre, e, de repente, geralmente atrasado, nos perguntamos: nossa, por que tudo mudou tão de repente? Mas nem foi de repente. Foi lento, foi imperceptível. A gente é que só nota depois.
  • Acendo aquilo que deve ser meu último cigarro hoje. Há um silêncio na casa que posso ouvir. Porque sei que em breve, muito breve, não haverão silêncios. E gosto disso também: a casa cheia de gente, as gentes invasivas, o vínculo sanguíneo como um dado real - coisa que órfãos entendem muito mal. Vou ligar meu gravador, vou falar para o mp3. É assim, nessa mistura tímida e involuntária, que eu me torno eu mesmo: e, vá lá, isso nem é tão simples quanto parece.  

28 de maio de 2012

\lista/

  • O amor passeou tanto dentro de você que se perdeu.
  • A alegria dela sempre me pareceu estúpida. Não que não fosse alegre ou verdadeira. Incomodava-me que era alegre demais - como o amigo suicida do Tchékov.
  • Irritar-se com a carioca burra e afetada de 18 anos é normal. Ficar irritado por isso muito tempo não é inteligente. 
  • Tristeza é voltar com a mesma quantidade camisinhas.
  • Meu caráter circunstâncial prova minha fraqueza. Lembro que existem medicamentos para esse tipo de coisa. Não querer drogas químicas é uma burra questão moral.
  • Conversar com gente nova quase sempre me dá mau humor. Os jovens precocemente velhos são, via de regra, mais interessantes.
  • A felicidade nunca será a prova dos nove. Em última estância só o chato é eterno.
  • Ouvir alguém que fala alto me irrita muito. Ouvir um que pergunta a outro algo que poderia descobrir sozinho me irrita muito também. Conclusão: vivo irritado por causa dos outros.
  • A culpa existe sobretudo para aqueles que dizem que ela não existe. E aquele que diz "pra ser sincero" está apenas sendo cretino com mea culpa. Repare: o 'sincero' costuma dizer que a culpa não existe.
  • Sob qualquer circunstância usa a palavra América 'auto-estima' será um ato falho.
 

25 de maio de 2012

A impossibilidade da beleza nunca me incomodou. Assim como também nunca achei ruim o fato do amor não ser um sentimento espontâneo. "Amor à primeira vista" é um discurso bonito, mas pouco verdadeiro. Inclusive por isso a beleza é impossível. A verdade não permite a beleza - essa linda ilusão que alimentamos com alguma consciência. Todavia, a beleza é legítima como invenção: pelo prazer da carne, pelo devaneio dos sentidos. E taí a arte que não me deixa mentir. Um belo quadro muito e tantas vezes não tem nada de beleza. É belo pelo que nos causa e não pelo que é.
E o amor espontâneo é minha sobrinha quando tinha 5 anos e me disse 'eu te amo' após eu ter preparado sua refeição. É coisa de bicho: amamos quem nos alimenta, com comida ou não.
Então olho pra trás e lembro dos meus amores rotos. Verdadeiros enquanto alimentavam e eram alimentados. E penso nos casais que continuam juntos mesmo sem alimentação e me recordo que o hábito é um conforto e que se sentir confortável é se sentir bem e feliz. A felicidade, muitas vezes, é perversa. Por isso, por estar vinculada à idéia de conforto e por se esquecer que tantas vezes o conforto é apenas um costume adquirido.

22 de maio de 2012

(s.r)

Seu amor é uma desculpa para sua mania de amar.
Amar tanto é um jeito de nunca amar muito.
Conta-se as gotas, faz-se as contas
e imagina-se o impossível.
Amar, assim, meu coração,
 é apenas
 levar
 o cachorro
 pra passear.

17 de maio de 2012

relatinho

  • Acordo cedo, mas me enrolo um cadinho. Passear pela cama é um prazer de bicho. Os gatos ensinam suas lições.
  • Há um mal humor sem razão de ser. Explico fácil: coriza e vias aéreas entupidas. Depois de expelir meus mucos, acendo a luz:  um jeito caipira e cristão de não voltar a dormir. Vejo o envelope embaixo da porta.
  • Volto para o quentinho da cama com o envelope na mão. Acendo e leio. É ancestral: entendo tudo, tudo mesmo, que está escrito.
  • O vício pede café e o mal humor se acalma. Cagar depois do 2° café é um tipo de benção. Imagino essa gente que precisa de activia e dou graças por ser um bom cagão.
  • (O cigarro é bom, é sempre bom. O grande erro dos não fumantes e das campanhas anti tabaco é só um: achar que o cigarro não é bom. [ E ser bom e fazer mal são coisas distintas. Como sexo sem camisinha, por exemplo. É mal, mas é sempre melhor do que com camisinha. Até o Papa concorda.] )
  • O mundo é cheio de gracinhas. A professora me dá atenção porque conheço a palavra 'espístola'. Na sequência me junta com a pior americana do mundo e da América: incapaz de olhar pros lados e centrada em si e suas dificuldades. Tento explicar que traduzir ao pé da letra é impossível, mas ela não entende porque nunca entende. Ela tem esse defeito: jamais entende ou entenderá e, muito possivelmente, acha que os outros são muito intolerantes com ela. 
  • Estar em grupo é fácil. É coisa de animal, da natureza. Grupos sólidos impõem indivíduos. Aproveito isso, mas, cá comigo, confirmo meu preconceito: os de mil amigos ainda são os mais solitários.
  • Outra americana, agora a melhor da América e de outra turma, usa meu grupo para falar comigo. Sinto-me bem, falo com ela e lembro da música que representa nossa nação atualmente: delícia, delícia, assim você me mata.
  • Penso em ficar aqui por mais um mês. Sinto a atração irresistivél e concluo: nada a perder, tudo a ganhar. Isso não vale pra dinheiro, mas... Aqui é melhor, simples assim. Porque aqui não é lá - onde meus demônios têm força e não admitem tranquilidade. 
  • Não estar lá melhor do que estar aqui. Quero dizer: o mundo é vasto, enorme, e, a bem da verdade, não o conheço. Veja: conhecer não é fazer turismo de dias em cada capital. É outra coisa: ficar mais de mês e notar que existem outros jeitos de viver. Quiçá tenha começado isso muito velho.
  • A biblioteca é linda e tem a peça que quero ler. Leio um pouco, mas meu nariz entupido me intimida. Sou o tipo de pessoa que tem vergonha de assuar o nariz em público. Volto, volto logo: a biblioteca é linda e tem a peça que quero ler.
  • Ficar mais é ganhar mais tempo. Ganhar mais tempo é brigar com a morte. Morrer é natural e normal. Morrer não é desejo, é fato. Fatos são o que são e nos animalizam. Porque escolha é a lição humana e a briga Trágica. Édipo luta por isso, Antígona também. Até a Eva - mesmo que no caso dela a escolha já venha como erro. Quero dizer: escolher sempre será o prazer - por mais abstrato que seja. 

p.s

Primeira coisa do dia:

- ler a cartinha da Fabiana.

Poderia ter chorado, mas não chorei.

Em outras palavras: - te amo.

14 de maio de 2012

dia de/da lua é melhor do que segunda.

Espalho os livros pela casa e acendo os abajures.
Ler tomando Malbec é o cão que treinei para me dar a pata e que me satisfaz toda vez que faz o que ensinei.
Deixo os arquivos abertos, o blogue aberto. Encaro el bigodon por duas ou três páginas e volto ao primeiro G. Marquez não-traduzido.
Meu cão treinado se satisfaz com a minha satisfação e lambe minha mão e mexe seu rabo.
É cômodo viver assim.
Fumo os malditos Gitanes e lembro que até nisso já houve glamour. Não lembro quem começou, mas acho que foi o Camus.
Eu, agora, sou uma bicha gorda que tem um castelo no deserto e que, em noites frias, se sacia com  eunucos de 13 ou 14 anos.
O frio promove a elegância e estar longe colabora com certezas antigas e desprezos que têm sua razão de ser.
Troco de livro uma ou duas vezes e releio as coisas antigas.
Imagino Deus, velho e barbudo, achando graça de tudo isso.

12 de maio de 2012

Com o carimbo SUGAR en las manos.

  • Entender um mundo que é maior que o seu. É bom. Saudável de modo geral e preciso de modo específico. De modo geral: é grande, é enorme e é impossível de ser compreendido. De modo específico: você não é o que pensa, você não é só aquilo que pensava e você dança com alegria e espontâniedade.
  • Margot da Alemanha poderia ser linda, muito linda. Mas não é. Apresenta-se com sua sexualidade e isso, faz um tempo, não me parece um bom sinal. (Creio que daí vêm minha implicância com gays afetados: muito fêmeas ou muito machos). A sexualidade não é um cartão de visita ou uma máscara social. A sexualidade é parte da jogada. Alguém que se apresenta a partir de sua sexualidade é como um advogado, um ator ou um físico que se apresente a partir de sua profissão. É normal nos identificarmos com o que fazemos. Mas causa desconfiança ouvir - ou notar - "prazer, sou fulano(a), e sou quem sou por ser advogado, ator, físico, gay, etc".
  • Margot poderia ser livre, ser verdadeiramente livre, se não fizesse tanta questão de ostentar sua liberdade.
  • As Japas explicam de um jeito bem japones: é bom e saudável ser submissa. O homem se torna mais gentil e temos muitas vontades atendidas. É estranho e distante da minha realidade. Uma mulher que não questiona e que acha que assim é melhor. Dá pra entender. Mas não sei. O equilíbrio entre os sexos ainda me parece mais fatal: como se um compensasse a loucura do outro.
  • O produto nacional é suspeito. Sou preconceituoso e acho que a idade determina muita coisa. Todavia, é assim: a mais nova é melhor que a mais velha. Talvez seja uma questão de vivência. Meu Deus, estou falando 'questão de vivência...'
  • Seria um bom homem se eu conseguisse acalmar a Margot. Não sou um bom homem.
  • A inglesa parece triste em seu casal. Falta empolgação naquela pareja. Não sei. Casal internacional que se vê a cada 2 ou 5 meses só faz sentido com muita, muita empolgação. Ou então com amor. Mas amor é bem mais complicado.
  • Eu mesmo: com dancinha e desenvolturas perco toda razão que não tenho. É, em síntese, a razão de eu estar aqui. De toda forma, penso: Margot, eu te amo; Japa, pega no meu pau; Nacional, em 10 ou 20 anos; Inglesa, não entendo essa dança, mas dancemos.
  • Não há tristeza e nem há mortos. Para mi triteza, que me gustam la exajeración. Mas, quiçá, assim de passinho, a oração de mamãe seja atendida. E assim, com Deus no sol e o Diabo na lua, eu siga em outra direção que não a esperada. Essa coisa de seguir, assim ao vento, é mesmo muito sedutora.
p.s. falta margot aqui. margot tem muitos mais motivos pra ser exaltada. é um bom personagem, mas não, infelizmente, uma mulher linda. meu diabinho me diz: ' you can't always get what you want'.  

9 de maio de 2012

bigodon de bruços.

  • A idéia de uma verdade (ou verdades) me parece encantadora. Não sei em que momento histórico o discurso de que 'não existem verdades' ganhou força. Sei que hoje esse discurso está em mil bocas mortas que vêem na dúvida uma virtude honesta. A dúvida não é uma virtude. Ela ocorre, ela é normal. Mas não é uma virtude. E raramente é honesta. Via de regra, os que exaltam a dúvida o fazem por preguiça ou, no melhor dos casos, por incompetência.
  • A certeza é um desejo, a dúvida é um caminho. Quem caminha atoa está perdido, quem gosta de estar perdido é burro. Percorrer caminhos é bom, saber que existem vários caminhos é melhor. Decidir por 'não-decidir' não é uma opção, é um medo de optar, uma falacia que usa requintes semânticos.
  • Tem um treco que me ajudou muito. É mais ou menos assim: admiramos alguém pelo esforço que ele faz. Mas isso não quer dizer que o que 'ele' fez seja admirável.
  • De modo geral: as pessoas não querem ser melhores ou mais inteligentes. E muito menos desejam a verdade. As pessoas querem conforto e continuidade. Algo que as faça sentir bem e que as iluda para sempre. Nessas, entende-se o sucesso do P. Coelho, por exemplo. Ele ilude às pessoas com suas próprias ilusões.
  • O erro dos ecológicos é só um: achar que a Natureza é sábia. A natureza não é sábia. E a justiça natural é a mais cruel que conhecemos: olho por olho, dente por dente. A Natureza, defendida pelos ecológicos, é uma ilusão, uma abstração. A natureza, tal como é, é a lei do mais forte. Nesse sentido, os EUA é o país mais coerente de todos - e isso, vale lembrar, não é sábio ou justo.

8 de maio de 2012

__________________

Gostou quando eu disse que só acreditaria em Deus se ele fosse um velho barbudo.
Deu risada, soltou um 'pode crer' e acendeu um cigarro fazendo 'não' com a cabeça.
Falava sobre coisas bestas. Sobre forças transcêndentais. Sobre a pressão social pós redes sociais.
Eu não ligava muito, soltava gemidos de 'ham' e concluía que só importava o que estava na minha cabeça. A realidade era apenas um fundo para nossa fotografia.
Cabelos longos, movimentos calmos e riu de todas minhas bobagens.
Pensei em amor, pensei em tesão, pensei em carências mútuas que se saciam.
Deus estava no céu e alisava sua barba.
Ela tinha coxas e ria. E eu, agora, a amava.
Feliz pra sempre, eu lhe diria se ela me perguntasse.
Mas não foi preciso.




5 de maio de 2012

Essa capacidade de dizer alguma coisa e se divertir.


Se fosse pra procurar alguma coisa, eu procuraria a verdade.
Mas eu não vou procurar nada - e antes que algum imbecil pense, eu me antecipo:
- a verdade existe: não encontrá-la não muda os fatos.
Então vou vagar pelo Facebook,
vou analisar as pessoas por seus feeds,
por suas fotos compartilhadas,
por seus acessos de sinceridade nas madrugadas de segundas-feira.
Os videos inteligentes aqui e ali,
uma sagacidade vulgar
e os trocadilhos que demonstram erudição e vaidade.
*
Ainda gosto mais de ver as gordas nas espreguiçadeiras,
tomando sol à tarde,
com um suco verde do lado,
lendo a revista que revela:
- os passos para conquistar o amor.
- as posições para o ato sexual.
- as técnicas do boquete-milagre.
- as comidas que ajudam os intestinos.
- a Claúdia Leitte dizendo que estar grávida lhe enche de tesão.

30 de abril de 2012

língua roxa de syrah

O prazer de ler as próprias coisas e gostar. E pensar em projetos gráficos audaciosos. E, por que não?, em ser o vendedor das próprias lástimas.
Em outras palavras: o prazer de sonhar. E de entender que sonho ou realidade tem mais a ver com estilo do que com conteúdo, com fim.
Tipo: o junk da realidade acha que sua realização é fruto de um trabalho árduo; o junk do sonho acha que sua realização é fruto de seu talento.
Seja como for, os dois gostam das próprias realizações.
E tanto faz. E pouco importa. E é questão de estilo.
Estilo, essa coisa-palavra que tão bem o velho Buk definiu.
Então ouço as canções do Leonard Cohen e sinto-me doce, otimista e imagino que conversar comigo hoje seria muito chato.
E tomo vinho barato e me preparo pra ir à uma peça e digo pra mim mesmo:
- sim, sim, continue.   

29 de abril de 2012

É domingo, molho minha boca com malbec e baixo discos.

=
Ouço a Gal-Fatal e tento entender o que diabos aconteceu. Nos dois shows que vi dela não havia alma ou grito. Era uma voz. Não era uma pessoa que cantava, era uma voz que cantava: só uma boca vermelha e iluminada que mostrava uma refinada técnica.
E tem o bom do Caetano-Compositor nesse disco. E, diabos, o que foi que aconteceu com o Caetano? Tentei ouvir o penúltimo disco dele e nem e nada. E desisti porque queria manter o bom do Caetano no meu imaginário.
Penso se é o tempo, a ação do tempo. Se é inevitável que as pessoas piorem com o tempo. Tentei ouvir as músicas do último disco do Chico Buarque. E achei ruim. E tinha uma muito, muito chata. Que tinha uma pegada de blues e umas rimas que, meu Deus, onde estava o C. Buarque, afinal?
Há também a possibilidade de que a ação do tempo ocorra em mim: mais chato, mais implicante. E que seja só isso e que eu tenha perdido a inocência daqueles que acreditam em gênios e seres extraordinários.
O bigodon diz que a necessidade de acreditar em gênios é parecida com a necessidade de acreditar em Deus. Ele diz bem melhor e de um jeito bem mais convincente. El bigadon tem verve e escreve bem, eu repito.
E lembro do belo texto do Skylab sobre a nova mpb. E acho que ele acerta bem, que ele é bem preciso. E que você pode até discordar do que ele diz, mas, vá lá, tem sentido pra caralho aquela idéia. Inclusive no lance de faltar pau e buceta.
De forma que me pergunto: - onde foi parar a buceta da G. Costa? O pau do Chico? O cu do Caetano?
=
Meto a mão no meu livro jamais lido pelos meus melhores amigos. E penso que merda de melhores amigos são esses. E tento entender por que não cobro deles isso e por que, enfim, isso me dá tanto prazer. Quero dizer: meter a mão no livro que nem sei se pode ser publicado e nem sei avaliar. E, vá lá, por que diabos se publica? Por mil motivos abstratos, eu sei. Mas como faz? Porque eu, eu mesmo, sou o travadinho da estrela e definitivamente não sei vender meu peixe. E isso me fode. E el bigadon também fala disso. Digo: dessa capacidade de vender o próprio peixe. E ele, como sempre, fala de um jeito fodão.
=
Devo confessar que te amei - se te amei - porque você era triste. E sua tristeza, é bom saber, é toda a sua beleza. Você alegre jamais será linda. Porque sua tristeza é real e comove gente fraca e cristã como eu. E seus gemidos eram essa canção triste que faz a gente lembrar da infância. E sua alegria me deixava contente porque mostrava o quanto o abismo é profundo. E teve duas ou três tardes em que acho que te amei. Porque foram as raras vezes em que você não pensou se era feliz ou triste.
=
Lembro da escritora hermética que um dia me disse que não escrevia muito no seu blogue porque temia ser roubada. E quando ela postava algo novo, apagava o antigo. De modo que seu blogue tinha sempre uma só página. Um dia li um texto que ela tinha escrito e pensei: - por que ela acha que será roubada?
=
Tesão: dizer pra Japa Teen que ela deve trair seu namorado. Bobagem: dizer pra Japa Teen que ela deve trair namorado. Mistério: por que, sendo tão vaidosa, ela não faz o buço?
=
A beleza do adeus cheio de choro na rodoviária.
Nunca mais uma mulher tão chorosa.
Nunca mais um amor tão decente.  

24 de abril de 2012

A gente faz o que faz, a gente é o que é. Cagar regra é prazer, não é talento.

Agora tomo vinho. Não pela recomendação da mamãe que dizia: - bem melhor do que cerveja, assim até perde essa sua pancinha gorda.
"Pancinha gorda" é coisa de mamãe - que me ama e me adora e me quer bem.
Mas não é por isso. Que tenho minhas rebeldias e algum senso prático.
O frio aumenta e a cervejinha gela os corações. De forma que tomo vinho.
Vinho barato, vinho de quem não conhece vinho. Vinho barato de quem não conhece vinho e que acha que há muitos vinhos caros que nem são tão bons assim.
Tive uma namorada que acreditava que caro era bom. Tive uma namorada que não era lá muito esperta. Tive uma namorada que, enfim, depõe contra mim.
Mas to falando de vinho. E de mamãe.
E, bem, vá lá, gente é um bicho muito circunstâncial.
Eu sou.
De forma que:
- beber vinho no frio é normal, não é virtude nem estilo.
- a oferta de vinho é maior porque a demanda é maior.
- vinho no calor carioca sempre será afetação.
- p.s. a afetação é legítima. A merda é a afetação mal resolvida.
Então vou nos chinos, saco meu 50 pesos e volto com dois vinhos pra casa.
E lembro de mamãe, de ex namorada, de cerveja e de Rio de Janeiro - uma cidade muito, mas muito, sedutora.
E há diabos para lustrar os chifres.
E uma fuga dentro da fuga bastante irresistível.
E o blogue-monstro querendo letrinhas.
E cumpro funções e estudo pra provas e acordo cedo e tenho popularidade em feeds estúpidos e gosto de filmes e de pessoas e também sou a favor da legalização do aborto e da discriminalização das drogas e acho que os gays devem casar e adotar/ter filhos e penso em Deus e tenho angustias e imagino que a felicidade pode sim morar numa vagina e gosto de sorvetes e filmes no fim de semana e vejo filmes de ladyboys e compro livros em sebos e leio menos do que gostaria e concordo com programas assistencialistas e admiro o Fidel Castro e acho a vida bacana e fico triste quando certos namoros/casamentos acabam e estou vivo e penso na vida e o infinito e eu e aquilo que tá certo ou errado e os prazos e os desejos ignorados e a falta de culhão e as almas tristes e eu e isso e aquilo e a coisa toda e a sensação antiga e idiota e espírita e arrogante que diz: sim, sim, eu entendo tudo; e tudo está muito bem. E nem importa que esteja. Que sim é bobagem, que não é bobagem. Que feliz é bobagem, que triste é bobagem.
E lembro da amiga. DA GRANDE AMIGA que um dia disse: - as únicas palavras que importam são aquelas: sim, sim, continue.


20 de abril de 2012

-=-

- o talento estúpido e vulgar que rola por aí.
- os indiferentes que passeiam com ares de superioridade.
- o namorado ciumento usando sua cultura como justificativa para sua possessividade.
- a tristeza que me comove e que me desperta sentimentos cristãos.
- aquela japonesa que olhava pra minha boca e, depois, concluí que era por ter barba e bigode.
- o gringo metido a esperto que acha se drogar uma grande aventura.
- aquela japonesa de quatro. Um jeito de ficar de quatro que era muito... japonês.
- as pessoas de 21 anos me falando sobre suas passeatas.
- os feeds do facebook cheios de lugar comum e preconceito invertido.
- os músicos que cantam no seu ouvido enquanto está sentado no bar e que acham que merecem dinheiro.
- a holandesa que não entende a passionalidade e acha que tudo pode ser mais contido.
- a cerveja de litros.
- os dedos amarelos.
- o dia depois de um dia depois de outro dia.

18 de abril de 2012

small little truths from pleasure

  1. Inveja-Branca, Foda-Amiga, Raiva-Boa. A culpa pela metade, a culpa sem força. Coisa de gente indecisa. Que acha indecisão=reflexão. A verdade ainda passeia no bosque: "OU DÁ OU DESCE".
  2. A moça simpática de nariz adunco postou uma bela música no Facebook. Infelizmente o pedaço da letra que ela destaca prova que ela gosta da bela música pelos motivos errados.
  3. - Estou falando de verdades!/ - Verdades não existem! / - Então não quero falar com você.
  4. Infantil: a)superestimar o sexo, b) superestimar o prazer, c) superestimar a ausência de dor, d) superestimar o mundo, e)superestimar.
  5. Estúpido: achar que ser natural é ser verdadeiro.
  6. Entre japas que ficam de 4 e gringos que se chocam com pedintes de rua, eu descubro: - o reino da dinamarca continua podre.
  7. Coleguinhas mandam beijos, escrevem saudades e dizem você faz muita falta. Acreditar nessas demonstrações de afeto faz com que você tenha muitos amigos.
  8. Não é pessimismo achar o mundo uma merda, eu aprendi. Achar o mundo uma merda é o mínimo que se espera de quem utiliza o intelecto. E seu bigodon me disse de um jeito mais elegante: ou a felicidade ou o intelecto.
  9. Felicidade, se bem entendi, tem a ver com sua capacidade de acreditar nas próprias ilusões. Artista, se bem entendi, tem a ver com saber alimentar as grandes ilusões alheias. Só um artista não-artista fala do real. Artista elabora.
  10. O tesão, como dizem por aí, é um supermercado. Sente-se tesão entre gôndolas infinitas e parece absurdo a variadade de marcas e produtos. O tesão, como prática, está reduzido à dona de casa que compra sabão em pó OMO há 30 anos.
  11. Todo erro será meu. Sou cristão, acredito no livre-arbítrio e Jesus morreu para nos salvar. Mas se Jesus morreu para me salvar e eu não estou salvo a culpa é de quem? Minha, de Jesus ou da Japa fanhosa, com quem tenho que tentar uma besteira?
  12. Uma carta sem reposta é sinal de ingratidão?/ Não. / Um pedido sem retorno é sinal de indiferença? / Talvez. / O silêncio sem posição é normal. / Não, é o erro, a indiferença, é o adeus disfarçado de 'quem sabe'. 

15 de abril de 2012

Relatinho

  • O que deixará mais saudades, o que me parece mais decente, de tudo, é voltar caminhando tranquilo para a casa à 01 ou 02 da madrugada. 3 kms que são como caminhar na praia. E há pessoas pelas ruas, e as ruas são bem iluminadas e na sorveteria da esquina há um enorme grupo que toma sorvete alegremente.
  • Ontem saí com a grigolândia do curso. Uma inglesa, um sueco e uma japonesa (os dois são casados). Incrível como ainda percebem nossa realidade como seus antepassados colonizadores. Estranham o uso da buzina no trânsito, estranham os beijos, estranham o barulho que nós, os de cá, os latinos, fazemos. O sueco, que já morou em diversos lugares do mundo, comentou que a Argentina poderia ser muito mais rica, mas que ela dificultava a exploração de minérios. Não resisti e soltei pra ele no meu inglês macarrônico: os países ricos são os que exploram os minérios nos países pobres. E ele riu, e disse 'verdade', e espero que tenha entendido a minha provocação.
  • Não é preconceito nem nada. É que eles ainda nos vêem como exóticos. E isso, muitas vezes, dá uma raiva danada.
  • Teatro bom, caminhada lenta e quase entrei no que pensei ser um puteiro. Mas não descobri se era puteiro ou um bar gay, pois vi apenas homens entrando. Todavia, ir a um puteiro me parece uma boa maneira de conhecer melhor a Argentina.    

13 de abril de 2012

o encanto dos números e o Brasil como moral à ser seguida.

  1. Nunca gostei de amor indiscriminado e sempre impliquei com o excesso do uso da palavra SAUDADES nos feeds do facebook. 
  2. O bom amor, o grande amor, é, e sempre será, um enorme preconceito. Ama-se à alguém que é superior ao resto da humanidade. Só o imbecil ama alguém comum e acha que isso é normal, que isso é amor.
  3. Os portugueses me ensinaram: saudades é uma palavra chorosa. Eles me explicaram: os brasileiros abrem muito as vogais para falar SAUDADES. E isso faz com que a palavra perca sua beleza de lamento. Os portugueses dizem SuD'Des.
  4. Se entendi bem é assim: não se pode ser tolo e avaliar uma moral fora do local onde aquela moral é prática. Tipo: se um homem matou outro homem na guerra ele pode ser chamado de assassino?
  5. Ler o bigodon tem a ver: a) com vaidade, como não? ele mesmo, o bigodon, é bem claro em quanto a vaidade determina nossas ações. b) com tesão, porque há algo de fodão nas afirmações ditas sem medo, porque aquilo que temos, e que muitos acusam ser intolerância, são, em última instância, nossa capacidade de reconhecer que a moral que rege a humanidade não é uma moral voltada ao 'espírito livre'. c) existe uma sensualidade em ler algo que você acha que é capaz de te transformar. não é que você vai, de fato, mudar. é que durante a leitura, ou melhor, durante a experiência da leitura, você acha que entendeu tudo, porque, enfim, o bigodon escreve bem e com verve. d) a idéia de que o bigodon é pessimista me parece bastante errada. tem a ver com pau na mesa, com assumir o pau na mesa, o 'espirito livre', o não concordar com o resto da humanidade, mesmo que o resto da humanidade seja essa enorme e maioria absoluta. e) ler é, de forma geral, prazeroso. ler um desses caras que são fundamentais para nossa compreensão do mundo é mais tesudo ainda. e repito: el bigodon escreve bem, com verve. é diferente da Bíblia, por exemplo, esse livro tão importante, mas que, sejamos francos, não é lá muito bem escrito - o que, segundo el bigodon, só contribuí para que tantas mentiras tenham sido elaboradas a partir dele. 
  6. O Café tem elegância e afetação. Creio que parte do preconceito brasileiro com os argentinos tem a ver com isso. O Café, esse lugar, é afetado. Mas não há afetação em frequentar os Cafés aqui. Não sei se me fiz entender. É o tipo de justificativa vaga que sempre damos: é da cultura deles. Seria como condenar um índio que trepa com a tia. Índios trepam com suas tias porque não existem tias como nós entendemos. Ah, vá lá, é dolorido prum brasileiro perceber o quanto a idéia de civilidade está à frente na Argentina.
  7. Tipo umbigão: fazendo o curso de espanhol com os diversos gringos fiquei contente por pertencer ao 3° mundo (principalmente ao Brasil) e, por isso, não acreditar no mundo ordenado que eles têm. Porque são limpos, educados, brancos e não entendem muito bem o fato de sermos essa bagunça que dá certo. E no caso do Brasil ainda mais. Porque nós trepamos com pretos, portugueses, alemães e criamos um país que choca por ser tão grande e não ter movimentos separatistas. O colega da Escócia ficou admirado ao saber que eu descendia de tanta gente. Porque ele nunca se misturou, porque ele é o colonizador que não se apaixonou por um bela preta com buceta dourada, porque ele pertence ao mundo que mantêm a idéia de raça, enquanto nós, brasileiros, sabemos que o grande barato é ser vira-lata - como o cachorrinho que tínhamos na infância e nunca precisava das vacinas que os podlles precisavam.         

12 de abril de 2012

A culpa é da revista Claúdia.

Não era amor e nem era pra ser.
Acertar o lugar do clitóris não é ser bom amante,
eu pensava.
Mas estava só e era triste, muito triste.
-
Perdi a mulher da minha vida
porque o alvo era o clitóris
e eu nunca dei muita bola pra ele.
-
O clitóris, eu aprendi na Argentina,
é a conquista
da fêmea antecipada.
-
Em outras palavras:
um alvo,
uma tristeza,
um botão de controle remoto.

9 de abril de 2012

Sabia que seu coração é seu pulso de mão fechada, sabia?

  • "Fugir das paranóias e dar tiros nas cabeças dos idiotas." Seria um título, uma invocação à felicidade. Mas não agora, não ainda. É que as paranóias me alimentam e os idiotas são meus amigos. Ou seja: instinto de auto preservação.
  • Deveria escrever outro e-mail? Não deveria escrever outro e-mail. Mas, confesso, conferi pela 3° vez se o e-mail estava correto. É que tenho tendência a me culpar e o silêncio me mata. Imagino ter escrito algo que não devia, ter ofendido sem saber, essas coisas. Sou um bichinha, confesso. E o silêncio não me deixa atento, me maltrata.
  • O óbvio pode ser cruel. E foi o que ocorreu: o óbvio berrou na minha cara e roubou o picolé de chicabon que eu tinha na mão. O óbvio é alto, altivo e está calmo porque estar calmo é uma maneira de não se afetar por essa coisa insignificante chamada mundo. O óbvio é óbvio e, por isso, já imaginávamos que agiria assim. De qualquer modo, não consigo deixar de me sentir triste ao constatar o óbvio.
  • Não sou da turma e nem turmas tenho. Talvez dois bons amigos e, vá lá, uma família bacana. Penso no que fazer e, pra ser sincero - e lembro que sinceridade só é mérito para imbecis -, não creio que haja tanta coisa a ser feita. Ou pior: não creio que haja coisas que valham a pena serem feitas.
  • Um diz: - talvez ela não te ame mais. Outro diz: - talvez ela precise repensar as coisas. O terceiro diz: - talvez ela nunca tenha te amado. É o pessimista, o otimista e o sincero falando. Quem duvida que o sincero é sempre o pior? É simples: o sincero adora tudo o que ele, o sincero, fala. É um egoísta. Um egoísta burro, é fato, mas um egoísta.
  • A garota de muito amores caiu no golpe. O golpe é infantil: peço informações desnecessárias para que meu sotaque seja percebido. Dou um tempo e pergunto coisas sobre teatro. Daí que todos, no mundo inteiro, podem falar sobre teatro - porque, de alguma maneira, todos têm opinião sobre teatro. Hoje elevei o golpe e emplaquei um café. Nariguda típica, tesão simples e café é tão inofensivo, né? Descobri a morte. O café mais caro da minha vida. Nada inofensivo. Muitos amores pra pouco nariz, concluí. Quem, sendo relativamente decente, fala sobre tudo e todos em um simples café? Fugi. Expliquei que estava atrasado para um peça e quando ela perguntou qual, menti que tinha conseguido um ingresso de última hora, pois a peça estava esgotada. Ela lamentou. Eu lamentei também. Lamentamos por motivos diferentes e, por isso, não era amor.
  • Esse sexo culpadinho que nos dá tanto tesão. Penso nas prostitutas de antigamente, que eram cortesãs e, supõe-se, guardavam segredos terríveis. Agora não. Toda garota triste leu na revista Nova as artimanhas do sexo e as aplicam, devo confessar, com surpreendente habilidade. Estou delirando, eu sei. Mas no delírio, digo: o papai-mamãe se tornou a grande ousadia, o último fetiche. - Cara, acredita que ela topou um papai e mamãe durante toda a transa? - Duvido, mulheres como ela jamais fazem isso!

7 de abril de 2012

A bicha gorda e seu caderno.

Tá assim:
Buenos Aires > 1° dia em minha casa em Palermo. (março/2012)
- Quando se está só, fica-se no balcão. É um belo jeito de se estar só, de se beber só. Lembro de amigos que dizem achar deprimente beber sozinho. Eles não sabem de nada, não entendem de solidão. Não desconfiam que deprimente mesmo é estar sozinho e não beber. Porque a bebida é companhia. E esquenta. E nos deixa tolerante, com as nossas dores, com as dores dos outros.
A bebida amiga fazendo com que menos pessoas se matem, com que menos pessoas matem outras pessoas, com que menos pessoas soquem outras pessoas.
Isso eles não entendem. Talvez jamais entendam.
Tem a ver com solidão.
Com saber que solidão existe.
Tem a ver com não achar que solidão seja um grande problema.
[o cagaregra, o mundinho me abala]
(mesmo dia)
l
-> hum. Será que saí? hum é mó coisa de viado.
Gostar de Fernet é fácil. É amargo, tem gelo e desce bem. Aqui eles insistem em misturar com coca. Deve ter outra mistura. Porque Fernet não foi feito para se beber apenas ele. É bebida de gosto forte e pede algo que suavize. Fernet é, agora, um macho argentino.

6 de abril de 2012

de todo o resto.

Falava de amor e novidades. Falava de tudo. Dizia que tudo mudava, que o mundo era enorme, que a intensidade doía. Explicava os astros e dizia que, mesmo sem saber, eu era uma pérola, um deus, um escolhido.
Me mostrou suas mãos e me explicou porque era assim, porque vivia assim, porque acreditava assim.
Gostava de homens, de mulheres, de flores, de cidades, de passarinhos, de ricos, de gente, de bairros pavimentados com árvores, de praias, de cinemas, de bares. Gostava de tudo.
Me explicou sobre saúde, sobre alimentação, sobre os índios esquecidos da Austrália. Disse não ter país, não ter lugar, não ter plano de saúde. Riu. Achou tudo que disse engraçado e riu.
Eu ri também.
E nos sarramos, e nos beijamos, e íamos trepar, mas meu pau não entendeu e ela disse seus clichês de mulher descolada: "não me importo", "super normal", "acontece".
Disse meu clichês: "nunca me ocorreu", "que merda", "a culpa não foi sua".
Mas a culpa - se culpa havia - era dela e eu sabia.
Mania de fêmea por cima, mania de fêmea 'levanta que eu corto', mania de fêmea de mil posições. Mania de fêmea meio macho antigo, que acha que estar no controle é estar bem.
(Lembro de um bom papo de bar, onde, ouvindo os outros, homens e/ou mulheres, cheguei a conclusão que toda brochada é culpa do outro, uma vez que mulheres também brocham, e que sempre, e sempre e sempre, antes da brochada em si, há um erro claro e transparente que, como sempre, jamais é percebido pelo 'errador')
Nosso hasta, nosso quem sabe, nosso eu te ligo. A discrição é uma arte e os travestis são confundidos com mulheres em lojas de sapatos femininos.
Meu amorzinho / meu tesão
eu não te espero
mas finjo que sim.
Aprendi:
é conveniente viver assim.

2 de abril de 2012

Faculdade de Medicina, se bem lembro.

Fazer o que não se faz e descobrir que as coisas são boas e inofensivas. Porque é bobagem, mas sei: muito dificilmente faria isso estando no RJ. E não é nada demais; e é saudável. E a decência passeia tranquila em casas pequenas e aconchegantes.
Ver as gurias, ouvir as gurias. Reparar em suas histórias, em um senso de nação e solidariedade que surge pelo fato de ser outro, de ser estrangeiro. Tentar não olhar muito os peitos, muito as coxas. Ou melhor: tentar olhar com discrição. Ou melhor ainda: tentar olhar apenas para a própria satisfação, sem o desejo de 'olhe como te olho.'
Ser calmo, beber lento, comer pizza e ouvir o caminhão de lixo e seu barulho universal.
Os panos das gurias, os urigâmes das gurias, a história da prenda que era caipira, da roubada com porteños escrotos, dos paus moles, do cigarro sem nicotina que diz que a fumaça alheia é prejudicial.
Voltar, pegar o ônibus, pensar que a pé era só mais 20 ou 30 min...
O Fernet, a beleza que é a mistura de doce com amargo na medida exata.
A satisfação simples, a vida besta, o sentido de estar onde estou.

1 de abril de 2012

Travando o m-ped.

Descubro meu bar, descubro meu número: uma cerveja de um litro, dois Jack Daniel's e uma água. Ainda não sei como o Fernet entra na jogada, mas chego lá. Questão de tempo, de experiência, de informação de bêbados argentinos. (Ainda não conheci nenhum bêbado argentino, desses que cagam regra e explicam porque o mundo é assim.)
Três semanas amanhã. A cidade está mais domesticada e a maioria das direções eu acerto. Andar ainda é um prazer. Se fosse atleta, se tivesse vocação para atleta, diria: se não andar, meu corpo reclama.
Tenho que resolver minha rotina porque estou acordando muito tarde e porque acordar tarde só vale a pena quando acordar cedo não é bom. Até porque dormir é sempre bom, mas a gente faz em qualquer lugar. Quero dizer: andar com luz solar é bem mais conveniente.
Então: pra tocar punheta e dizer u-hu, fica assim: rotina inventada, neném. Das 10 às 12 andar, das 12 às 13 comer, das 13 às 17 escola ou biblioteca, das 17 às 01 a vida, as coisas que importam.
É, o tesão passeia. É, confirmar que você é você mesmo dói mais do que agrada. É, sobreviver não é viver em função da sobrevivência. É, melhor gordo-mole do que magra-dura. É, ser cruel consigo próprio é a única decência possível.
Meus dedinhos em direção ao ceú / meu ventre me puxando pra baixo / uma vontade de subir / e, Deus, bem do alto, dizendo que tudo é besteira.

29 de março de 2012

Café da cafeteira.

Impressiona-me o silêncio, a indiferença.
(E hoje sonhei com uma rejeição que me doeria de sobremaneira)
Mas estou falando de outra coisa, de outras gentes. Tem a ver com a ausência de sonhos e com o desejo de controlar tudo.
Penso nos cachorros que dependem de alguém  para pegar a bola e lançar para que possam, enfim, se divertir buscando bolas. E tem os cachorros sem donos, e tem ainda os cachorros que pegam a bola e deixam próximas à mão do dono.
E há ainda os pardais voando naquele raio de 1 km que, por algum mistério, jamais é transposto.
Impressiona-me o 'precisando é só chamar' e o 'estamos aí', as galinhas que cacarejam satisfeitas por porem seus ovos.

28 de março de 2012

má1eme10

  1. Pra ter tesão e dizer até logo, eu sei também, meu bem, meu bayb, meu nêne, meu tico-tico.
  2. Quero isso e aquilo. Quero o mundo todo. Quero tudo, quero muito. Querer, eu li, é repetir a merda velha e gasta de quando eramos crianças e o choro fazia com que peitos surgissem para nossa satisfação.
  3. Ter nariz é simples, basta ter nascido. O lance, nêném, é o nariz que te alcança o ânus.
  4. Nunca mais aulas de redação. Nunca livros publicados. Nunca outra guria deslumbrante fazendo promessas e contando mentiras depois de te ler.
  5. Ficar com o pinto pequeno por causa do frio. Elas não entendem. Elas nunca entenderão. Pinto, queridas, não é uma matemática de soma ou subtração.
  6. As sinceridades do carinho são mais importantes para quem fez o carinho do que para quem os recebeu. Você sabe, né?
  7. A elegância é uma paisagem. Quero dizer: se a paisagem não for pintada por um impressionista é o quê?
  8. Mulheres que se impressionam quando convidadas para tomar vinho só fazem sentido no verão carioca - quando o vinho não combina com a temperatura e ser incoerente vira virtude de gente que não gosta de cerveja.
  9. Quem mudou foi Àjax, foi Édipo. E, é sempre bom lembrar, eles não mudaram porque queriam.
  10. Há quem ache tudo barato porque valoriza o prazer de comer alfajor com café. Eu não. Eu gosto mesmo é cerveja.

26 de março de 2012

Relatinho.

Trata-se de ir e vir, de estar tranquilo para ir e vir. Aquela abstração que a gente chama de 'sensação de segurança'. Tem a ver com claridade, tem a ver também, como não?, com bairro rico.
Então vou e venho. Sempre andando sempre andando. 3 kms de ida e 3 de volta e, meu deus, é claro que 3 kms a pé são mais simples do que de ônibus e mais econômicos do que de táxi.
E há prazer em andar. Sobretudo em andar a noite, quando tenho destino e objetivo - que é diferente do andar diário cuja graça é justamente a ausência de destino. (O nome disso é flanar, me explicou a Fran uns anos atrás)
Então voltou do show à pé. Show que jamais iria estivesse eu em outro lugar que não aqui: Emicida e Criolo. Bom de ver, bom de estar. Fernet meu amigo e táxi de cu é rola. Andar, neném, andar.
No meio do caminho o bar que, ao que tudo indica, será o meu bar. É razoavelmente perto (1km, acho) e tem um preço decente. Não é muito turístico e nem super-popular, o que é ótimo.
Dois Fernets a vinte pesos cada e uma área de fumante bastante decente.
(Tinha uma brazuca semi-famosa lá e reparei em como essa gente famosa sempre se comporta como famosa. Quando peguei meu 2° Fernet ela estava com o dono e fazia questão de o chamar pelo nome. Era previsível e estereotipado: ela sempre será uma apresentadora do Multishow)
Intimidade na volta e contas que dão certo. Concluo que começo à conhecer a cidade e que me perderei menos daqui em diante, o que talvez seja uma pena.
Chaves certas pra trancas certas e, vá lá, faz apenas 2 semanas, por mais incrível que isso me pareça.

25 de março de 2012

Repare bem.

  • As crianças são, na grande média, felizes. Podemos dizer também que, de modo geral, as crianças não pensam, apenas sentem. Por isso são felizes as crianças: estão próximas do humano-animal, àquele que apenas reage, ou melhor, que sobretudo reage.
  • Conclui-se que não pensar - ou pensar pouco, sendo generoso - é o grande agente da felicidade. Quanto menos se pensa mais feliz se é. Os que sentem, os que identificam a vida com o ato de sentir, são mais propícios ao prazer - ou seja: a idéia ancestral de que felicidade é o prazer e a infelicidade é a ausência de prazer, ou desprazer.
  • Não há verdades, não há fatos. Há, e olhe lá, o 'pensar cientifico'. O 'pensar cientifico' apenas reconhece que somos guiados pelo instinto de prazer ou desprazer. Ele não define nada, não resolve nada. Ele se pretende verdadeiro e, portanto, incólume à sensações e estados de espírito. Não há julgamentos, há contestações. E sempre com um ponto de vista bem definido.
  • O 'pensar científico' tornou-se relativizado. É triste, mas é compreensível. Em última estância nunca há verdade absoluta. E isso foi o 'pensar científico' que disse, não foi o neo-hippie do séc. XXI.
  • O erro fatal, se erro há, é achar que o fato de tudo poder ser relativo, torne inexistente a defesa legítima de um ponto de vista. Em outras palavras: mesmo em erro você pode (e deve) defender um ponto de vista. Porque isso, essa coisa banal que é defender um ponto de vista, é o que te caracteriza enquanto humano. Repare, você não fala de indivíduos, fala de humanidade, de coisas da humanidade. Daquilo que é humano, demasiado humano. (Se você fala de indivíduos, claro está, você é estúpido, apenas estúpido)
  • Pessimismo ou otimismo são valores idiotas, eu li e concordei. Porque tem a ver com prazer/desprazer. E por que, vá lá, quem, em são consciência, vive por conta disso?
  • Não há perguntas e nem há respostas. Há o mundo manifesto que está errado via de regra. Rejubila-se com a dúvida ou satisfaz-se com as respostas. É o mundo manifesto e verdade há sim, como não? Você pode não buscar, não desejar buscar, mas o problema é seu. Verdades existem, mesmo que negadas, mesmo que impossíveis de se alcançar.
  • Fica o não dito. A força da individualidade diante do mundo e a tristeza da solidão. Fica o não dito: sem tempo, sem graça, sem proscratinar a idéia de sucesso. Fica isso, fica Deus e fica a necessidade cruel de contato humano. Porque somos assim, porque lemos as coisas erradas, porque o isolamento não é circunstâncial e nunca foi. Tem a ver com inaptidão, com merdas que rolam, com shit'en'roll.
  • Fazer. Andar. Andar é fazer e fazer é uma abstração. Esqueço do bigodudo e cago minhas próprias regras. Fica assim: tesão passeia/ teatro de estudantes/ tudo varia.   

21 de março de 2012

Toma-se Fernet, neném.

  • O tesãozinho passeia e a cada ônibus tenho uma nova paixão. Há vezes em que desço antes e outras que desço depois. O tesãozinho resiste como um bravo: é um helado argentino no verão carioca.
  • Fazer o que não se faz é um dos motivos de eu estar aqui. Hoje, por exemplo: balada (boliche) em boate cara e gente que não me interessa de modo geral. Danço rap e música eletrônica e concluo: maravilha, eu não sou eu, eu não preciso ser eu.
  • Fernet com coca vai durar. É bom e gosto do amargo que tenta superar o açucar da coca. Bebo 1 até 4. Devo me inteirar mais e ver com o que Fernet combina. Tipo: whiskey e cerveja ornam, já cerveja e vinho, não dá.
  • Muito gringo, gringo demais. Os gringos são fáceis porque estão aí e querem conhecer gente. Gringos não têm critério porque todos e qualquer um são um novo amigo-potencial. Minha birra quer argentinos, quer porteños. Por isso baladas (boliches) não são jogo e nunca serão. Preciso de bares e lugares comuns, onde se vai porque se gosta e não porque se quer conhecer 'gente nova'.
  • Andar é a jogada. Queria ter a pulseira-americana-próxima-moda que mede nossos passos e a distância percorrida. Não por nada, mas porque não tenho a miníma idéia. Se me disserem que andei 5 km direi sim, se me disserem que andei 15 km. direi sim também. Quero dizer: não tenho idéia do quanto ando, mas adoraria saber.
  • Tenho alguma tarefas que inventei pra mim. Amanhã é quarta e as tarefas devem começar na segunda. Tarefas... a gente realmente, e infelizmente, precisa disso. Não preciso ser fiel à mim mesmo necessariamente, eu sei. Mas a pulga me coça: fernandinho, há tarefas boas e prazerosas.
  • Não há um fim específico. Se fosse chato dizia "é um processo", "uma obra aberta". Mas me recuso e sintetizo numa frase canalha e sincera: estou aqui para PENSAR na vida. E, perdão, PENSAR na vida, REALMENTE pensar, não é pouco. É mais, muito mais, do que trabalhar 40 hrs por semana e odiar o trabalho. É coisa de sonho, de tesão, de viver uma vida que não seja apenas, eu disse APENAS, sobrevivência.   

20 de março de 2012

Relato.

Se me perguntassem o que faço, diria que ando.
Pra lá, pra cá, com ou sem direção. Ando.
Cada vez me perco menos e cada vez mais andar me parece uma grande coisa a fazer.
Andar, andar, andar.
Paro no lugar errado e, inocente, peço um frango ao limão. Que frango ao limão deveria ser um frango grelhado, mas não é. Trata-se de um frango branco, com molho de limão escuro e cheiro e aspecto de frango descongelado.
Não há muito a fazer. Reclamar do que? Pra quem? Come-se a 'ensalada', tenta-se comer o frango e paga-se os 50 pesos.
Um dia alguém explica o porquê dos argentinos gostarem tanto de frango...
Então ando novamente e paro e pego um sorvete. Que há sorvete, todos bons, em todas as esquinas. E lambo aquilo e ando e ando.
Os caminhos mais longos, os lugares mais sem sentido. Sem pontos turísticos, sem casas de escritores, sem igrejas que resistiram às revoluções.
Os pretos muito pretos que vendem coisas, os bolivianos muito bolivianos que vendem coisas, os argentinos muito argentinos dentro dos cafés.
Ando mais, confundo Córdoba com Corrientes e descubro que estou na direção certa...
Ameaça de chuva, calle Borges e reparo que sou o único ameaçado pela chuva.
Paro no praça (Cortázar, se não me engano) e leio 3 ou 4 capitúlos do meu livro sobre o teatro argentino, que afinal quero me inteirar das coisas e quiçá aprender espanhol.
A chuva não vem e vou ao mercado. Os piores tomates de toda a América estão na Argentina, eu acho.
Compro 2 ou 3 coisas, vejo produtos que não conheço e preços que provam a falácia do 'tudo barato'.
Na calle Paraguay reparo que choveu.
Ando mais um pouco e estou em casa. (Uma casa boa, pequena, mas boa, num lugar tranquilo e pop que se chama Palermo e que nada tem a ver com o real mundo de B. Aires. Mas quem realmente se importa com o mundo real de B. Aires? Ou mesmo com o mundo real de maneira geral? Eu não e muito menos agora.)
Compras na geladeira, Kiosco 24 Hrs e um tipo de paz.
Banho sem surpresas pela 1° vez e andar novamente. Agora pouco, agora menos. 1 km. 
E há vinho à 50 pesos em todas esquinas.
Bebe-se. Kiosco 24 hrs. Tudo certo.
O que fazer amanhã?
Andar.

17 de março de 2012

Armênia y Chacras.

Se perder é parte da jogada. Tenho os tênis que papai comprou e, vá lá, essa tecnologia toda beneficia horrores os pés da gente.
Juro que é à esquerda e é à direita. A rua que era transversal, na verdade, é paralela. E tá tudo certo. E ando e ando e ando.
Lembrei hoje do livro do Kerouac no qual relata suas flanadas por Paris. Lembrei que devia ter dado esse livro a Fá e que ele, sempre meio atleta meio drogado ( e nem vale usar o catolicismo fanático agora) programava caminhadas de 30 kms por dia.
Lembrei disso porque vi um Punk no ônibus com coturnos e porque, se bem me lembro, o Kerouac usava botas longas pra caminhar. Lembro que nesse livro ele falava da importância das botas.
Daí concluí que comprar um coturno parece ter sentido. Se não servir pra caminhar, terei um pisante que dura anos e anos e que, vá lá, tem estilo pacas.
Fernandinho de coturnos pelas ruas porteñas. Uma fita, uma foto, um novo fato: trocadilho em homenagem ao Aramis.
Ainda bebo meu whiskey com água, mas agora bebo também fernet.
Bebida amarga pra quem realmente gosta de beber.
Eu gosto, eu bebo.

16 de março de 2012

Tudo novo, tudo lindo.

Deus está no ceú e nos abençoa e tudo vai bem, muito bem,
bem demais.
E forço-me a lembrar: pensar na vida, decidir as coisas...
E caminho kilometros por dia e tenho uma casa nova e todas as possibilidades de tudo.
E Deus, do ceú, me pisca e diz:
- vai, gordinho safado!
E as bolhas nos meus pés sararam
e andar pra cá e pra lá é simples e prazeroso
e os narizes das argentinas só melhoram a cada dia.
+
E vejo escolas, converso com taxistas, atendentes de bares ou cafés
e descubro que, na média, na grande média,
as pessoas são boas e generosas,
seja lá o que isso for.
+
E Deus volta
e dá um sorrisinho
e diz: - até logo, neném!
E falo c' Ele
e sim, sim,
eu entendo:
tá tudo certo, bebé!

14 de março de 2012

A garota do banco.

Tão linda, tão amável, tão argentina: o nariz mostrando a direção para o sagrado inferno.
Deveria ter escrito meu nome, meu endereço, meu e-mail, meu telefone, o número do meu R.G.
Não deveria ter escrito apenas o nome dos livros e o nome do autor.
Quiçá amanhã volto lá, pego o papel, escrevo R.G, telefone, e-mail e endereço e, em grande estilo, deixo no papel uma marca de beijo de batom, que terei passado exclusivamente pra isso.