"Ser ignorada me dá tesão", ela confessou.
Por um lado fazia sentido e era óbvio. Por outro, o óbvio ululava alto demais.
(E Nelsão, que nem tem nada a ver com isso, se revirava no caixão).
Falava "pau", mas não falava "pinto".
Dizia, como se sua sacada fosse divertida: "pinto só se amarelo".
E advertia: "Já transei com um japa, tá ligado?"
Eu não tava ligado. Eu não queria estar ligado. Eu não gostava das informações desnecessárias que ela me dava:
1. Foi umas fase antropológica, sabe? Testei as raças, todas as raças: africanos, amarelos, europeus e asiáticos. Concluí que gosto mesmo da América do Sul. Saca o Belchior? Sou da turma dele.
2. Eu li na revista. Olha só. 83% das mulheres casadas têm problemas intestinais. Mas o bizarro é que a faixa etária não determina isso. Mesmo mulheres nascidas na década de 90 e que casaram sofrem disso. Vê? Ainda acha o machismo ultrapassado? Hein?
3. Pra mim não importa. Eu quero é que se foda. Mulher traída merece a traição. Já tive homem casado. Lindo ele. Casado! Eu morria de tesão. Acho que é o proibido, né? Uma vez eu viajei de navio com a minha tia e me masturbei pensando nos marinheiros que poderiam, se quisessem, me estuprar... mas é fetiche, né? Coisa de adolescente... sei lá... A verdade é quando uma amiga minha se envolve com um homem comprometido eu dou a maior força. Eu digo: 'se joga amiga, você não tem nada a ver com a traição dele, você não tá traindo ninguém, tá?' E nem adianta que eu sei: não to errada, tô? Sou mó cabeça aberta, não sou?
Eu não sabia. E também não queria saber. E tinha praticidade. A buceta dela era quente, abraçava meu pau e, às vezes, parecia ser um tipo de caixão que me deixava em paz.
Foram meses. Antes do ano virar ela precisava de alguma coisa que eu não tinha. Fazia sentido. Eu não tenho um monte de coisas que ela precisaria. Era justo ela ir e ela se foi.
Eu fiquei porque eu fico. Porque eu gosto de ficar.
Porque me sinto vivo ficando.
E ela foi porque vai. Porque gosta de ir.
Porque se sente viva indo.
Foi quase perfeito. Quase.
17 de março de 2011
Tua tristeza me incomoda.
Talvez porque não te conheça
e estranhe coisa que julgo minha
em pessoas que me prometiam e falavam,
com uma desenvoltura que quase me constrangia,
sobre felicidade e paz no mundo.
-
Porque teve um dia que sonhei com Jesus
que me disse, coçando a boa barba:
- você é um anjo, gordinho.
E Ele, o filho de Deus disse anjo,
e, talvez por vaidade, eu acreditei.
-
Então me mantive gordo,
olhei pro céu
e agradeci ter sido batizado.
-
Daí que Jesus voltou:
- gordo bom olha muito e fala pouco.
E eu sorri pr' Ele
e Ele me deu uma piscadela
e disse:
- gordinho... só manera o cigarro, OK?
E eu ri de novo
e ele sumiu sorrindo
dentro da nuvem onde Ele passeava.
14 de março de 2011
7 curtinhas, eu roubei.
- O tempo passa e não há jeito. Quero ler outro livro do García Marquez pra ter certeza que seu assunto é o tempo. E se não for, é a saga de uma (ou duas ou três ou várias) existência (as). E se mesmo assim não for, dane-se: tio Gabo é um puta escritor e nem precisa de defensores.
- Então me reduzo. Reduzir-se é legal. Vejo à mim. E vejo aos meus. E eles e eu estamos juntos. Na glória e na desgraça. E até, como não?, no bar da esquina onde vejo as melhores bundas do Rio de Janeiro inteiro.
- Se seu afeto é ver meu blogue, eu digo: você me adora. Se não, eu deduzo: você é pior do que eu pensava.
- Foder é uma coisa. Foder com prazer é outra coisa. Foder e amar é um céu. Amar enquanto fode-se é o próprio sentido da existência. E isso só acontece à cada 12 anos, como o Horóscopo Chinês.
- O telefone toca e é Vovó. Ela ficou feliz com o que escrevi e fez com que meu blogue tivesse mais visitantes do que jamais imaginaria. Vovó rocks e tem uma rede na Internet que trascende qualquer feed de facebook. Vovó não tem Facebook ou Orkut, mas vovó consegue ser viva - V Maiúsculo - até nessa coisa virtual.
- Mando minhas cartas e meus recados. Acho, e acho mesmo, que o asfalto cinza em baixo dos pneus são um belo divã sem - é bom ressaltar - a opressora figura do analista e seus cabelos grisalhos e óculos minúsculos.
- Fumar é minha muleta. Se fosse Curitiba e seu frio, estaria na TV e no sono. O Rio de Janeiro é difícil de largar também por essas coisas. E o Aramis que concorde comigo.
13 de março de 2011
Porque sou implicante. (s.r)
Devo dizer que o seu sorriso é verde. E também que sua frequência em feeds e mostras de fotografia digital fazem com que eu pense mal de você.
Aproveito pra lembrar que falar sobre amor na Internet é piegas e sem sentido. Que amor na Internet é como os feeds que ficam em páginas não atualizadas. Amor e Ternura estão na moda de tal forma que se tornaram suspeitos e nada espontâneos. Coisas de Neo-Hippies, em outras palavras.
Volto a ressaltar que comida japonesa é Fast Food. Não dá pra dizer "Bora comer um japa" como se isso fosse cool ou cult ou pop ou descolado. Fast Food. Tá provado.
Dê uma volta no Shopping (aquele lugar de consumo, você chama) e repare: Japas em excesso e com kombos à lá o original Mc"Donalds.
- número 1, por favor
- 6 salmão skin e 3 sashimi atum, confirma senhor?
- confirma.
Entre outros detalhes, lembro que:
a vibe oriental não é natural;
natural, de natureza, não tem nada de bonzinho porque na natureza, essa coisa supervalorizada, reina a cruel lei do mais forte;
achar que um índio é uma pessoa boa por ser índio é como a Regina Casé que inventou que qualquer coisa da periferia é ótima por ser da periferia - o nome disso é preconceito;
o cinema americano ainda é o melhor cinema do mundo, mesmo que haja um esforço muito nobre do cinema nacional.
Então encerro aqui e deixo a dica: você é comum e todo seu lance alternativo vem daquilo que você nomeia de ilhas de consumo. E até aí tudo certo. A gente vive num mundo de merda que, querendo ou não, nôs influencia. O que não dá e pega mal e achar que você tem autenticidade. Simplesmente porque ninguém que seja autêntico fala por aí "sou atêntico, sou autêntico."
E muito menos "ilhas de consumo".
Aproveito pra lembrar que falar sobre amor na Internet é piegas e sem sentido. Que amor na Internet é como os feeds que ficam em páginas não atualizadas. Amor e Ternura estão na moda de tal forma que se tornaram suspeitos e nada espontâneos. Coisas de Neo-Hippies, em outras palavras.
Volto a ressaltar que comida japonesa é Fast Food. Não dá pra dizer "Bora comer um japa" como se isso fosse cool ou cult ou pop ou descolado. Fast Food. Tá provado.
Dê uma volta no Shopping (aquele lugar de consumo, você chama) e repare: Japas em excesso e com kombos à lá o original Mc"Donalds.
- número 1, por favor
- 6 salmão skin e 3 sashimi atum, confirma senhor?
- confirma.
Entre outros detalhes, lembro que:
a vibe oriental não é natural;
natural, de natureza, não tem nada de bonzinho porque na natureza, essa coisa supervalorizada, reina a cruel lei do mais forte;
achar que um índio é uma pessoa boa por ser índio é como a Regina Casé que inventou que qualquer coisa da periferia é ótima por ser da periferia - o nome disso é preconceito;
o cinema americano ainda é o melhor cinema do mundo, mesmo que haja um esforço muito nobre do cinema nacional.
Então encerro aqui e deixo a dica: você é comum e todo seu lance alternativo vem daquilo que você nomeia de ilhas de consumo. E até aí tudo certo. A gente vive num mundo de merda que, querendo ou não, nôs influencia. O que não dá e pega mal e achar que você tem autenticidade. Simplesmente porque ninguém que seja autêntico fala por aí "sou atêntico, sou autêntico."
E muito menos "ilhas de consumo".
Vovó - s.r
Eu vejo as mortes que não são minhas com bastante ternura. Estou falando de gente que carrega morte: mães, pais, primos, tios e tias próximos, grandes amigos, etc. Na minha vida não há mortes. Perdi meus avós maternos e meu avô paterno. Os outros que morreram não contam muito pra mim: o Batata, pai do Tél, a menina da UNIRIO que caiu de moto, a irmã da Gabi em acidente, etc. Não tenho mortos de forma geral, posso afirmar. Sou o tipo de gente que não carrega morte. Não é vantagem ou desvantagem, é fato.
Quando e se minha vó morrer, vou me abalar. Porque ela é um tipo que não morre. É uma velha com quase 83 e que, muitas vezes, imagino me enterrando. Simplesmente porque ela tem uma vitalidade invejável e vive de um jeito que eu gostaria de viver quando tivesse sua idade.
Uma vez, já faz um tempo, em um aniversário meu, ela telefonou e me disse: "espero que tenha uma vida feliz como a minha." E eu chorei pra caramba depois porque ela tem uma relação com vida que não é pacífica, ela briga com a vida, mal diz a vida. Mas, mesmo assim, ela fala de sua vida com a felecidade no meio. E chorei. E ela nem sabe. Mas chorei.
Minha avó tem uma relação com a vida que admiro e invejo. Ela vive. E vive. E é uma das poucas pessoas que conheço que realmente vivem. Sem fazer com que a vida seja um mar de rosas ou um mar de espinhos. Ela vive e fala sobre felicidade, mesmo sabendo das merdas todas, das dores no corpo e das injustiças do mundo. Ela não faz de conta que merdas não existem, por exemplo. E isso, isso de ter as merdas e poder falar sobre felicidade é que fazem dela alguém que importa e que, mesmo sem saber, me serve de exemplo. Porque se for pra ser velho como ela é, eu topo.
Bem, esse post virou isso e eu sei porquê. Vovó Rocks e faz tempo. Desde que morei com ela sei que faz tempo. Vovó é duca e não pode morrer. Vovó não morre. Ela tem um nome lindo e vive. Está viva bem mais do que eu, meu pai ou suas netas. Vovó nunca mentiu pra viver melhor e por isso vive como nunca eu, meu pai ou suas netas entenderão.
Vovó não pensa na vida, vovó vive. E sabe que tudo tá certo e que é como é: seja as dores no corpo, os espinhos de flores ou não, Vovó vive e viverá. Vovó, mesmo sem saber, sabe das coisas.
Quando e se minha vó morrer, vou me abalar. Porque ela é um tipo que não morre. É uma velha com quase 83 e que, muitas vezes, imagino me enterrando. Simplesmente porque ela tem uma vitalidade invejável e vive de um jeito que eu gostaria de viver quando tivesse sua idade.
Uma vez, já faz um tempo, em um aniversário meu, ela telefonou e me disse: "espero que tenha uma vida feliz como a minha." E eu chorei pra caramba depois porque ela tem uma relação com vida que não é pacífica, ela briga com a vida, mal diz a vida. Mas, mesmo assim, ela fala de sua vida com a felecidade no meio. E chorei. E ela nem sabe. Mas chorei.
Minha avó tem uma relação com a vida que admiro e invejo. Ela vive. E vive. E é uma das poucas pessoas que conheço que realmente vivem. Sem fazer com que a vida seja um mar de rosas ou um mar de espinhos. Ela vive e fala sobre felicidade, mesmo sabendo das merdas todas, das dores no corpo e das injustiças do mundo. Ela não faz de conta que merdas não existem, por exemplo. E isso, isso de ter as merdas e poder falar sobre felicidade é que fazem dela alguém que importa e que, mesmo sem saber, me serve de exemplo. Porque se for pra ser velho como ela é, eu topo.
Bem, esse post virou isso e eu sei porquê. Vovó Rocks e faz tempo. Desde que morei com ela sei que faz tempo. Vovó é duca e não pode morrer. Vovó não morre. Ela tem um nome lindo e vive. Está viva bem mais do que eu, meu pai ou suas netas. Vovó nunca mentiu pra viver melhor e por isso vive como nunca eu, meu pai ou suas netas entenderão.
Vovó não pensa na vida, vovó vive. E sabe que tudo tá certo e que é como é: seja as dores no corpo, os espinhos de flores ou não, Vovó vive e viverá. Vovó, mesmo sem saber, sabe das coisas.
11 de março de 2011
(s.r)
Beber é mais uma maneira de se acalmar. Assim como fazer aula de Ioga, ler um romance ou ouvir uma canção do Erasmo. É o que a gente faz: aprende a viver e tenta viver melhor. Suicídio nunca será uma opção pra quem tem pais vivos. Seria o máximo da mesquinharia. O suicída decente só poderia se matar se primeiro não houvesse ninguém que realmente sofresse sua morte; e segundo se essa morte fosse planejada de modo a não dar trabalho pra ninguém. Porque morrer e deixar dejetos para outrem é, no mínimo, deselegante. Nada mais vaidoso do que uma carta de suicida. E chega desse assunto mórbido que nem tem razão de estar aqui.
Escrevo aqui, como muitas vezes ocorre, quando não consigo escrever em meus arquivos. Escrever no blogue é fácil e conveniente. Escreve-se e pronto. Não tenho tantos e nem tão fiéis leitores e, pra ser franco, isso, o blogue, em última estância, é a terapia ocupacional mais barata que existe. De forma que cá estou enquanto o Erasmão dá seus recados na já recomendada rádio UOL.
Seja como for, quero escrever histórias. E escrever histórias é bem mais embaixo do que alimentar um blogue. Porque temos pretensões que nos devoram e nos machucam. E concluo que a minha vida está toda errada porque está fadada à frustração. Explico: um dia inventei-me artista e, por isso, consumi grandes artistas, repito: GRANDES ARTISTAS; e isso, como acontece, acabou por me foder ainda mais. Porque há grandes obras, há Dom Quixote e há Doistoiveski. Há essas obras realmente fodas e GRANDES. E podemos nos consolar dizendo que é um dia após o outro, que a gente vai aprendendo, que a insistência é uma virtude, etc, mas e daí? Quando inventa-se artista crê-se com talento e quando questiona-se o talento um tipo de morte começa à ocorrer. Lembro do único poeminha do W.Benjamim que conheço: cada vez mais cansado, cada vez mais cansado.
E vejo as pessoas girando e o mundo acontecendo. Noto que nem gosto do mundo ou das pessoas. Tento lembrar da tristeza mais bonita e não consigo. Então baixo uma comédia romântica americana e imagino que devo estar deprimido já que nem consigo me revoltar. Mas mesmo o papo de deprimido não cola porque há qualquer deboche que ainda me agrada. "Eu não sou um, eu sou muitos", eu deveria dizer para agradar os amigos neo-hippies que super-valorizam a ternura e o desprendimento. Como se ternura fosse simples, como se despreendimento fosse natural...
Fernandinho chato demais pintando na área.
Vou me reprimir que ainda mantenho a decência de não achar que auto-repressão é datado.
"Há limites", é um bordão que volta e meia uso. Gosto dele. Faz sentido: há limites.
Escrevo aqui, como muitas vezes ocorre, quando não consigo escrever em meus arquivos. Escrever no blogue é fácil e conveniente. Escreve-se e pronto. Não tenho tantos e nem tão fiéis leitores e, pra ser franco, isso, o blogue, em última estância, é a terapia ocupacional mais barata que existe. De forma que cá estou enquanto o Erasmão dá seus recados na já recomendada rádio UOL.
Seja como for, quero escrever histórias. E escrever histórias é bem mais embaixo do que alimentar um blogue. Porque temos pretensões que nos devoram e nos machucam. E concluo que a minha vida está toda errada porque está fadada à frustração. Explico: um dia inventei-me artista e, por isso, consumi grandes artistas, repito: GRANDES ARTISTAS; e isso, como acontece, acabou por me foder ainda mais. Porque há grandes obras, há Dom Quixote e há Doistoiveski. Há essas obras realmente fodas e GRANDES. E podemos nos consolar dizendo que é um dia após o outro, que a gente vai aprendendo, que a insistência é uma virtude, etc, mas e daí? Quando inventa-se artista crê-se com talento e quando questiona-se o talento um tipo de morte começa à ocorrer. Lembro do único poeminha do W.Benjamim que conheço: cada vez mais cansado, cada vez mais cansado.
E vejo as pessoas girando e o mundo acontecendo. Noto que nem gosto do mundo ou das pessoas. Tento lembrar da tristeza mais bonita e não consigo. Então baixo uma comédia romântica americana e imagino que devo estar deprimido já que nem consigo me revoltar. Mas mesmo o papo de deprimido não cola porque há qualquer deboche que ainda me agrada. "Eu não sou um, eu sou muitos", eu deveria dizer para agradar os amigos neo-hippies que super-valorizam a ternura e o desprendimento. Como se ternura fosse simples, como se despreendimento fosse natural...
Fernandinho chato demais pintando na área.
Vou me reprimir que ainda mantenho a decência de não achar que auto-repressão é datado.
"Há limites", é um bordão que volta e meia uso. Gosto dele. Faz sentido: há limites.
9 de março de 2011
A vida inteira e todas as jogadas.
A gente pensa muita coisa, imagina muita coisa e isso, em contas pessimistas, acabam por nos fazer mal. Muito sonho pra pouca realização.
E, ao mesmo tempo em que choro por mim, não vejo alguém para seguir. Primeiro porque não gosto de seguidos ou seguidores e depois porque, infelizmente, não acredito em 99% dos entusiasmos que vejo por aí.
Mas eu sou chato e isso é um blogue. Reclamar é parte do lance, seja o doidivana com armários ou o godardcity com listas sobre os piores da MPB.
Reclamo e não exijo cúmplices.
Confesso que considero isso uma virtude. Não preciso de companhia pras minhas merdas e minha decência é fazer com que não virem feeds em atualizações do Facebook.
E nem culpo ninguém além de mim mesmo. Quer dizer... na medida do possível. (Porque, devo confessar, ter um inimigo pode ser o próprio sentido da vida).
Assumir minha solidão tem sido uma tônica. E isso em todos os sentidos: inclusive nos destrutivos. Que seja. Ser egoísta pode ser bem decente. Ou então teria que acreditar naquele abajur que virou hit no youtube e dá lições de otimismo. Ele erra porque vê tudo com bons olhos, em um tirar leite de pedra que apenas revela a cegueira de quem quer - e acha que querer basta - que o mundo tenha sentido. O mundo tem mais o que fazer. Sentido é coisa de gente, não é coisa do mundo.
É uma pena e espero estar errado. Que haja sentidos secretos que eu, em minha tolice, não vejo. Que, quando eu morrer, venha o Chico Xavier ou Jesus ou alguém pra me dizer: perdeu, playboy.
A campanha Rio Sem Preconceito sofre do mesmo mal. Ela esquece que preconceito é coisa de gente e que não pode ser simplesmente eliminado. Preconceitos existem e existirão. O lance, se é que há lance, é não os levar à sério e, muito menos, dar porrada em alguém por conta dos seus preconceitos. Essa campanha reproduz, em certa medida, o radicalismo evangélico que quer nos obrigar a acreditar em Deus - como o já citado abajur que, depois de escrever aqui, fui ver um vídeo e vi que ele fala de sangue de Cristo e outras jogadas...
Então perco o ponto.
É um blogue e perder o ponto é parte da coisa.
Enquanto não for um abajur otimista, um solidário de facebook ou um oportunista circunstâncial, eu me sentirei bem mesmo quando estiver péssimo.
Que me acho bem decente e legal. Não alugo ninguém e nem exijo muita atenção. O que não quer dizer que não existam milhares, e até milhões, de pessoas que vivam bem melhor do que eu.
8 de março de 2011
A solidão acostuma e agrada. Lembro da minha prima que nunca esteve só e penso se isso é bom, ruim ou indiferente. Família... há algo de muito terrível nessa coisa chamada família. A tristeza generalizada e os anos passando. A saga do tempo que é todo romance de García Marquez. Porque toda vida, quando vista inteira, é algo chocante e meio triste. Não sei explicar. O Vinicius falando da saudades que sente da primeira mulher é um exemplo.
E lembro de uma alegria estúpida que via nos churrascos da minha infância. Meu pai e Orestes em risos e euforias bêbadas que de tão alegres revelavam a tristeza inevitável. E eu tinha 5, 6 anos e percebia isso porque com 5, 6 anos a gente percebe muita coisa. Acho que nem o Orestes nem meu pai são ainda capazes dessa alegria estúpida. Porque o tempo maltrata e a tristeza ganha mais importância do que deveria. É uma pena.
Ler o García Marquez tem me dado essa agonia. Porque a vida inteira não é boa nem ruim, nem alegre nem triste. E mesmo o amor - essa doce idéia por nós inventada - é despojado de arroubos e delírios que só fazem sentido se pensados em prazos curtos. (Minha avó e seus 51 anos de casada entende isso como se isso fosse simples). E ontem, antes de dormir, fiquei vendo esses rostos terríveis que surgiam no pré alfa e eu sentia medo e não entendia se os rostos vinham do livro ou do Carnaval.
Seja como for, minha solidão está reestabelecida e o controle que se deseja de maneira geral é mais objetivo quando se está só. Em todos os sentidos: no banheiro que é só meu ou na certeza de que ninguém ou nada me permeará se eu não desejar. Provavelmente deixarei um livro ou um filme me permear. E isso será uma escolha. E escolher, ainda acho, é legal pra caralho.
E lembro de uma alegria estúpida que via nos churrascos da minha infância. Meu pai e Orestes em risos e euforias bêbadas que de tão alegres revelavam a tristeza inevitável. E eu tinha 5, 6 anos e percebia isso porque com 5, 6 anos a gente percebe muita coisa. Acho que nem o Orestes nem meu pai são ainda capazes dessa alegria estúpida. Porque o tempo maltrata e a tristeza ganha mais importância do que deveria. É uma pena.
Ler o García Marquez tem me dado essa agonia. Porque a vida inteira não é boa nem ruim, nem alegre nem triste. E mesmo o amor - essa doce idéia por nós inventada - é despojado de arroubos e delírios que só fazem sentido se pensados em prazos curtos. (Minha avó e seus 51 anos de casada entende isso como se isso fosse simples). E ontem, antes de dormir, fiquei vendo esses rostos terríveis que surgiam no pré alfa e eu sentia medo e não entendia se os rostos vinham do livro ou do Carnaval.
Seja como for, minha solidão está reestabelecida e o controle que se deseja de maneira geral é mais objetivo quando se está só. Em todos os sentidos: no banheiro que é só meu ou na certeza de que ninguém ou nada me permeará se eu não desejar. Provavelmente deixarei um livro ou um filme me permear. E isso será uma escolha. E escolher, ainda acho, é legal pra caralho.
6 de março de 2011
- Faço contas e vejo o mundo. Pouca coisa importa. E isso faz tempo. Tem a louca que fala sozinha ao meu lado e pede desculpas. Ela, eu já vi, tem o costume de alimentar pombos. Cogitei perguntar sobre pombos, mas preferi não. Muito arriscado. Ela falaria horas sobre os pombos e eu nem estava tão animado assim.
- O Carnaval é um beleza. Gente animada, diversão barata e o mendigo que sambava enquanto playboys o perguntavam sobre sua fantasia. (Ele não usava fantasia). Os playboys riam das próprias sacadinhas e o mendigo apenas dançava. O mendigo que dança solitário prova o sentido do Carnaval. Os playboys provam o óbvio: gostar de Carnaval não torna ninguém melhor. (Um dia sairei com uma bela máscara de demônio. Porque fantasia faz mais sentido se, de fato, aniquila sua individualidade. A minha máscara imaginária será assim: ninguém me reconhecerá e eu não serei eu. 4 dias e meio por ano pra isso. É um bom número.)
- Todo domingo me repito. No bar da esquina leio o jornal e bebo 2 cervejas. Hoje, pelo Carnaval, bebi 3. O fato é que todo domingo leio a coluna do Caetano no globo. E o Caetano piora cada vez mais. Impressionante sua conversa só, na qual ele se lambe cheio de parênteses e citações de supostos e-mail recebidos. Não dá pra entender. Mas, ao mesmo tempo, chego à uma brilhante idiotez: a gente está sempre condicionado à imagem que temos de si.
- Sinto-me muito vital com a realidade dos outros. É simples: nesse Carnaval há parentes em minha casa. Eles vieram pro Carnaval no RJ, mas dormem muito e nem se animam tanto com o Carnaval do RJ. Dormem muito e nem seguem os blocos que passam. Parece estranho: se você vai ao Carnaval você faz disso um programa. (Como eu em Ctba nas ditas baladas). Não sei explicar, mas me sinto jovem e vital durante essas visitas.
- Tesão em desconhecidas é um dos prazeres do Carnaval. Elas passam e as assediar é parte da jogada. Não há ofensas, há risos. Uma foda de Carnaval parece uma bênção porque é exatamente isso: uma foda de Carnaval.
- Com a Branca, provavelmente pelo tempo longo, cogitei travessuras para evitar o inevitável tédio das longas relações. Carnaval era uma das possibilidades. Branca, como boa católica, se encantava com a idéia. E eu também. Era, e sempre seria, uma maneira de preservar o casal. Mas, nessa coisa Carnaval, cheguei a conclusão de que eu sairia perdendo. Ela era linda e mulher. Eu sou homem e nem sou lindo. Nada mais complicado do que um casal que se ama, é a minha conclusão.
- Fica a dica e também eu mesmo como brinde. Um gordo como chaveiro é uma bela fantasia. E há Internet, os filmes em rmvb e o Cinco Vezes Favela - que é um ótimo projeto, mas nem sei se é um bom filme. No mais: Carnaval e parentes. Em outras palavras: a vida segue.
4 de março de 2011
sssnsaps
Gosto das mulheres que eu invento
e que são minhas
lentamente formuladas.
-
Não gosto das mulheres que amigas
me apresentam
e dizem "a sua cara".
-
Gosto da mulher que é minha
e ninguém sabe.
E que se me dá
não fala às amigas.
-
Então fico só
e invento mulheres.
Se elas existem ou não
isso não me preocupa.
1 de março de 2011
Eu mesmo, muito prazer.
Fernandinho bate bife às dez da noite e calcula: muita cebola.
O celular agora é fonte de música: porque tem rádio MEC e porque a minúscula caixa de som lá é melhor do que a daqui. E isso prova que nada faz sentido.
Fernandinho fica de pinto duro vendo "Bruna Surfistinha" e lembra que teve um sonho erótico. Em pornografia internética prefere as milfs e as mons. Fernandinho reflete com ares profundos: preciso de buceta.
Fernandinho imagina-se com bastante dinheiro e chega a óbvia brilhante conlusão que teria putas semanais. Questão de conveniência e praticidade. 800 Reais em lazer constaria no orçamento.
Fernandinho tenta ler literatura contemporânea, mas não consegue e acaba lendo outras coisas.
Pensa que está estagnado no Rio de Janeiro e culpa o Rio de Janeiro. Fernandinho erra enquanto abre cds com fotos antigas nas quais era 20 kg menos gordo. Imagina-se mais feliz nas fotos: boa companhia e um RJ que nem tinha dois anos. Nessa época Fernandinho amava e era amado. Fernandinho sente saudades com facilidade e alegria.
Hoje mesmo espremeu uma espinha verde e enorme no próprio rosto. Durante o espremer soube que cometia um erro, mas persistiu. Fernandinho tem, agora, uma ferida em sua bochecha direita e lembra que a minancôra acabou.
Fernandinho quer desligar o rádio e o computador, mas não quer parecer antipático. Há sempre o risco de ser mal interpretado e Fernandinho não gosta de ser mal interpretado quando deseja ser bem interpretado ou nem interpretado ser.
Fernandinho fica sem palavras.
E se repete.
E deixa que o bom piano da rádio MEC seja o fim desse post.
O celular agora é fonte de música: porque tem rádio MEC e porque a minúscula caixa de som lá é melhor do que a daqui. E isso prova que nada faz sentido.
Fernandinho fica de pinto duro vendo "Bruna Surfistinha" e lembra que teve um sonho erótico. Em pornografia internética prefere as milfs e as mons. Fernandinho reflete com ares profundos: preciso de buceta.
Fernandinho imagina-se com bastante dinheiro e chega a óbvia brilhante conlusão que teria putas semanais. Questão de conveniência e praticidade. 800 Reais em lazer constaria no orçamento.
Fernandinho tenta ler literatura contemporânea, mas não consegue e acaba lendo outras coisas.
Pensa que está estagnado no Rio de Janeiro e culpa o Rio de Janeiro. Fernandinho erra enquanto abre cds com fotos antigas nas quais era 20 kg menos gordo. Imagina-se mais feliz nas fotos: boa companhia e um RJ que nem tinha dois anos. Nessa época Fernandinho amava e era amado. Fernandinho sente saudades com facilidade e alegria.
Hoje mesmo espremeu uma espinha verde e enorme no próprio rosto. Durante o espremer soube que cometia um erro, mas persistiu. Fernandinho tem, agora, uma ferida em sua bochecha direita e lembra que a minancôra acabou.
Fernandinho quer desligar o rádio e o computador, mas não quer parecer antipático. Há sempre o risco de ser mal interpretado e Fernandinho não gosta de ser mal interpretado quando deseja ser bem interpretado ou nem interpretado ser.
Fernandinho fica sem palavras.
E se repete.
E deixa que o bom piano da rádio MEC seja o fim desse post.
28 de fevereiro de 2011
Uma foto linda que me fez lembrar.
Quando a conheci a achei linda.
Olhei-a caminhando, meio que chutando as pernas pra andar, e reparei que trazia uma garrafinha que ocupava suas mãos e bebia de vez em quando.
Gostei daquilo. Inventei para minha satisfação: ela tem estilo. Isso: es-ti-lo.
(Estilo esse que uma vez se manifestou em um churrasquinho de rua. Ela com o espetinho e a carne sangrenta e suspeita me confirmou na época: estilo)
No primeiro dia impliquei: usava calça com vestido. Nada pior e mais inseguro do que calça e vestido. Mulheres tem manias incríveis. E inventam modas incríveis. Calça e vestido, eu pensei, mas deixei pra lá. Lembrei da garrafinha na mão e sosseguei.
Eu falava, ela falava, a gente falava e era bom. Beijo na boca. Logo reparei no queixo que se impunha para o mundo. Gostei do queixinho mesmo tendo lido que queixos assim não são bons sinais. Gente que se impõe, gente que precisa se impor. Que deseja a grande Teta. O queixo que ataca o mundo.
Mas quem liga? Beijo na boca. Bom beijar, bom beijo. Apertei seu queixo todas as vezes que pude.
- Vamos lá em casa?
- Não sei, não sei.
- Olha, a gente não vai fazer nada que não quiser. Vamos?
- Tá... tem whiskey? No blogue dizia que sempre tem whiskey...
- Tem, tem.
Nada demais, mas tudo simples. Uma alegria de promessa de Ano Novo. Dessas que não se pensa muito, mas se gosta e se tem e se deseja.
Em 2010 tudo seria ótimo.
- Legal?
- Legal.
- Mó loucura, né?
- Mó loucura.
Bem que eu me apaixonava, eu pensava sozinho. Fiz firulas, dei presentes e desejava me apaixonar. Queria o estado de graça da paixão. Tão bom, tão bom. Que minha última paixão foi Fran e foi bom tão bom.
O queixo pra frente e meu pau pra trás. O que fazer? Eu sofria, mas tinha calma e mantinha as esperanças. As coisas são assim: um pau mole, um ataque histérico, um choro sem sentido, uma ternura confusa, um peidinho alto que escapa sem querer. Acontece. Tudo acontece. Tudo é normal. Tudo. E tudo pode ser. E o que tem que ser, será. E tudo é sempre possível.
Excesso de tudo. Paradoxo de tudo. Se tudo importa nada importa, essas coisas.
- Você não sabe, mas você está apaixonado por mim.
- É mesmo?
- Claro.
Não era claro. Querer se apaixonar e estar apaixonado são coisas distintas. O velho lapso entre intenção e ação, desejo e realidade, essas coisas.
Tristeza de volta. Tudo podia ser e nada foi. Pena sem muita dor, apenas pena. Tristeza. Bem que podia estar mesmo apaixonado, eu delirava. Não estava, nunca estive. Infelizmente.
A água morna que é todo mijo: chutar cachorro morto, imaginar incêndios a partir de faiscas, virar amigos, virar melhores amigos, beber junto todas terças, cinemas, teatros e, porque não?, cafés inofensivos.
Nada de nada. Algumas ofensas trocadas e o tempo que sempre passa. Um adeus sem adeus, uma ternura sem ternura, uma memória do tudo que nada foi. Quem sabe, como vizinhos, um novo esbarrão e novo café. Aconteceu.
- Café?
- É, café.
- Eu gosto de Café.
- Eu tenho um amigo chamado Café. Café é nome, sabia?
- Eu sei, eu sei.
- Nome diferente, né?
- É... é...
- Será que o Bahia ganhou o campeonato?
- ?
- Tem um amigo meu que torce pro Bahia... fanático, cara...
- Ah, legal....
Dois beijinhos que é a praxe no RJ. O tchau é um 'a gente se fala' que também é praxe no RJ.
O táxi me salva e volto pra casa.
Sinto saudades da Fran, eu penso.
O tempo passou, eu concluo.
27 de fevereiro de 2011
Domingo-Oiés.
Meus planos são ótimos. E, agradecendo ao bom Deus inexistente, devo dizer: rio de mim mesmo e me sinto bem de maneira geral.
Não que tudo esteja ótimo e perfeito, não que eu não tenha ataques de pelanca dia sim/dia não, não que eu ache, como o mais alegre dos cegos, que tudo vai dar certo.
Meus planos são ótimos porque são planos. E porque, como todo plano, conta que haverá futuro. E, também como todo plano, vê o futuro melhor do que o presente. Simplesmente porque é assim que é: ao pensar no futuro não pensamos nas merdas, mas nas glórias. E é assim que deve ser. (Que ter planos pra pior seria o cúmulo da imbecilidade arrogante que, por tanto se levar à sério, crê ser a Realidade, R maiúsculo).
Então rio e sorrio e até gargalho. Planos! Que beleza!
E estou satisfeito com eles. Contra meu riso, devo dizer: são planos práticos e, razoavelmente, objetivos. Não são afetados nem pretensiosos, são planos cheios de cotidianaria e cálculos simples. Soma e diminuição: simples.
(Então separo os feijões. Cada vez mais separar feijões é uma tarefa inútil. É que máquinas separam com uma margem de erro bastante pequena. Quantas pedras se acha em um pacote de 1 kg de feijão preto hoje em dia? Poucas, muito poucas. E é o que é. Até porque, contra nós mesmos, devemos admitir o mundo muda pra caralho - mesmo que a gente insista em separar feijões.)
De forma que: planos, palmos, jogadas de aliteração e risos abafados que gostam de soltar perdigotos impertinentes. E os domingos e o verão do RJ. Belezinha e sono. Seriados americanos, Cinema da Argentina, Teatro de Improviso na TV.
Tá tudo certo, tá tudo ótimo. E as gracinhas, cheias de dengo, continuam a vir.
Resumo: a gente se diverte, né Mirolão?
24 de fevereiro de 2011

- Ouvir música clássica como quem bebe uma cerveja. A intenção por trás da coisa é a mesma: sentir-se bem, viver melhor, essas bobagens.
- Música clássica é o fino. Será que um dia só ouvirei música clássica? Lembro do bom Buk falando de música clássica. Faz todo sentido. É como se tudo estivesse lá. É como se fosse uma arte superior. (e sim, sim, sei que esse papo de arte superior é algo velho e chato)
- Arte é do caralho. E nem toda manifestação artística é do caralho. Mas pra quem gosta de arte há momentos em que tudo é aquilo. Pode ser uma música do Lobão, dos Beatles, um trecho do Domingos Oliveira falando ou o início de O Idiota. Tanto faz. De repente, por algum mistério, a gente sabe que está diante de um treco fodão. Pode ser uma tela do Picasso ou a Laura de Vison no teatrinho gay que ficava Travessa dos Tamôios. O que quero dizer: Arte não é um monte de perguntadores malucos diante de um quadro. Arte é e é imediata: ocorre diante de todos.
- Esse papo de que todos são artistas potenciais é a coisa mais imbecil que já se disse. Um auto ajuda destrutivo, desses que supõe a solução ser a auto estima (outra falácia). Uma pessoa feia sabe-se feia e reconhece a feiúra e a beleza. Ela não precisa estimular sua auto estima diante do espelho. Ela sabe quem é e faz o que faz. E, caso esse/essa, seja artista ele fará um quadro fodão, como o bom anão Lautrec. (Ou alguém acha que as putas que serviram de modelo para nosso anão não cobravam por hora?)
- Que venham os anões fodões e as músicas clássicas. Que o Dostoievski continue ensinando as coisas pros seguidores de Freud e que o Bortolotto explique por quê é sem sentido querer ser famoso. Que Reinaldo Moraes mostre que o sexo é divertido (e constrangedor) pra caralho e que o Nelsão nos diga sobre a importância de ter manias, taras e obsessões em geral. Que haja Picasso pra mostrar a guerra e Oticica pra revelar que o Brasil consome os ícones americanos como quem consome cocaína. Que os sambinhas representem nossa dor de corno e melancolias de machos latinos, que a MPB seja nossa inteligência e que o Win Wenders nos mostre o jeito certo de olhar as paisagens.
23 de fevereiro de 2011
(sr)
- Ver filmes de boxe e se acalmar. Boxe é realmente legal. E, fato, rende bons filmes. Homens que lutam é o máximo resumo. Faz sentido. Acho que sempre fará.
- Das manias recorrentes: Rádio UOL, música de Cello. E, Meu Deus, é tão triste e tão bonito. Imagino-me velho, com uma rotina e salário fixo resolvendo aprender tocar Cello. Seria uma boa velhice, acho.
- No bar da esquina bebo duas cervejas. Penso na janta. Preguiça do peixe que não descongelou para o almoço. Na esquina as pessoas passam. Reparo que os shorts das adolescentes estão cada vez mais curtos. É bom ver as coxas jovens: já meio escangalhadas, mas ainda jovens. Lembro do Nabokov com Lolita e concluo que Lolita é nova demais pra mim: garotas de 16 já me constrangem. Esse tesão sem direção é uma beleza, ainda que seja inútil.
- Durante o filme cago regras: todo homem deseja uma mulher que lhe salve. É um fato e nem sei o que fazer com isso. Tem um monte de homem que me acompanha: o Vinícius, o Dostoievski, o Domingos, etc. Imagino-me cagando essa regra (e descoberta tardia) para uma mulher do nosso tempo e concluo que fudeu. As maiores revoltas viriam à tona. Querer uma mulher que nos salve é, hoje em dia, algo que não deve jamais ser falado.
- Vencer uma luta de boxe deve ser do caralho. Da esquina eu reparava nos meninos que trabalham na farmácia e que brincavam de lutar. Um clássico. Lembrei das minhas lutinhas contra primos, amigos. Eram lutinhas de brincadeira, e, como toda brincadeira, serviam de ensaio para a vida adulta. É... filmes de boxe são mesmo ótimos: vou rever a saga do Stallone pra confirmar o óbvio.
22 de fevereiro de 2011
Faço as unhas, corto o cabelo e aparo barba e bigode.
Então é assim:
- Ou você é cínico ou é equivocado. O cinismo a gente entende e põe no bau idiota que leva a idiota etiqueta: 'coisa de gente'. Mas o equivoco... ah... o equivoco não tem baú e toca punheta com a mão esquerda por supor que, sendo destro, a mão é de outrem. Em outras palavras: lambe-cus só satisfazem imbecis. Ou será que realmente todos meus amigos que disseram 'a-do-rei sua peça' foram superrrr sinceros?
- Todo homem é uma criança. Digo: todo homem que inventa um programa com uma mulher é uma criança. Corrijo: todo homem que gosta de mulher e inventa um programa com uma mulher é uma criança. Demora pra ser indiferente ou pra ser amigo de mulher sem, secretamente, imaginar comê-lá. Diria que é questão de tempo e insistência. E com 'insistência' quero dizer uma íntima e solitária lavagem cerebral em que o homem repete mântricamente pra si mesmo diante do espelho: não quero comê-lá, não quero comê-lá, não quero comê-lá...
- Ter sucesso é o desejo mais imbecil e comum do mundo. E sucesso, se se pensar na palavra, é uma coisa estúpida e sem sentido. E nessas, a gente (os metidinhos de plantão com blogues e projetos artísticos variados), usa a palavra reconhecimento. Por um lado é decente e soa melhor, por outro apenas ratifica a idiotia dos nossos desejos diários. É um tipo de labirinto, onde os atores, mesmo com bons cachês, sentem-se envergonhados pelo sucesso que fazem.
-
De barba feita
e manguinhas de fora
meu pau precisa
descobrir aonde mora.
21 de fevereiro de 2011
fosse verdade que fosse mentira
*
Gordelícia de cachos dourados
que mora no Sul.
Quando passa,
cá comigo,
sempre penso:
- bem que entrava nessas carnes.
E vislumbro filhos,
polacos e ranhentos,
com brotoejas
espalhadas pela pele branca.
*
Que avião pegava por ti,
que frio passava por ti,
que orkut e facebook deletava por ti.
*
Gordelícia que não é gorda,
nem é do Sul e muito menos
tem cachos dourados.
Que gosta de homens femininos,
que mora no Rio,
que só goza em segurança
com homens magros e delicados.
Gordelícia que agora
- e só agora -
é apenas minha
e me ama profundamente.
*
Gordelícia com bracinhos de bacon
dizendo que tem vergonha
da própria vagina...
Veja só:
supõe os grandes lábios
grandes demais,
escuros demais,
tortos e/ou assimétricos demais.
Fala,
mas só entre amigas,
que acha o cheiro
da própria vagina
com cheiro demais.
*
Gordelícia com peitos sardentos
e mamilos rosas
dizendo que os queria marrons.
*
Que viu filmes na internet,
que ela não é daquele jeito
e que tem vergonha
de assumir em rodas de amigos
que adora a pornografia
vasta, gratuita e vulgar
que acessa entre um e-mail e outro.
*
Gordelícia falando sério
quando diz:
"- que não é porque tô te dando que sou puta."
"- você tem que tocar mais de leve, assim."
(e põe sua mão sobre a minha e faz movimentos lésbicos em torno do próprio clitóris)
"- não vou deixar você ficar olhando a minha vagina. Acha que é assim, é?"
"- você não imagina como é raro eu dar prum cara no segundo encontro."
*
Gordelícia com uma boca,
duas mãos
e os grandes lábios
mais tesudos do planeta
dizendo pr'eu colocar dois dedos
em seu ânus cinza e enrugado
que ela insiste em chamar
de bundinha.
*
Gordelícia, meu amor,
Gordelícia, não me esqueça,
Gordelícia, meu telefone
é o mesmo
e minha casa
ainda é minha.
*
Gordelícia se masturbe,
Gordelícia diga "safado",
Gordelícia eu sou esquecido.
*
Gordelícia...
apareça.
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